A supressão de Ana

Posted in Livros on Janeiro 17, 2012 by maiacat

de 2011

Em Resumo de Ana e Ciro, as duas partes que compõem a obra de Modesto Carone, relata-se a história de mãe e filho, narrada pelo neto da primeira e sobrinho do segundo.  Ana nasceu pobre, e ao virar órfã, foi “adotada” por uma senhora, indo lá trabalhar em serviços domésticos e como babá. Mais tarde, ela trabalharia como governanta em uma casa em São Paulo, onde conheceria a ópera e se apaixonaria pelo que ela representava. Pela vida toda almejaria sair arrumada elegantemente, para freqüentar os espaços mais elitizados de São Paulo, desejo que não seria compartilhado por seu marido. Apesar de abortar os primeiros filhos, ela enfim consegue dar luz à Lazinha, mãe do narrador. Além dela, viriam Zilda e Ciro. A trajetória de Ana vai ficando cada vez mais melancólica, à medida em que seus desentendimentos com o marido crescem e ela vê afastados seus sonhos. Ela sofre violência doméstica, e sofre também com a falência de seu marido, que passa a ficar cada vez mais ausente, indo trabalhar como vendedor ambulante de remédios. Cada vez mais entregue à bebida, Ana vai se afundando irrecuperavelmente.

Já Ciro, filho desprezado pela mãe e pelas irmãs, passa a acompanhar seu pai nas viagens logo cedo. Sua história não será muito mais feliz tampouco. Sua vida é toda de dificuldades, embora por alguns raros momentos sua vida se encaminhasse como quando passou a prestar serviços de gráfica. No final, ele volta a ser um vendedor ambulante pela rua, como no começo de sua vida com seu pai. Também Ana termina, de certa forma, como começou: sozinha e pobre.

Ambas as trajetórias somam quase um século inteiro, em um período de intensa modernização e industrialização do Brasil. No entanto, ao contrário desse pano de fundo de dinamicidade e mudanças, as personagens parecem estagnadas. Quando há movimento, ele é circular: volta-se sempre ao ponto inicial. Assim, enquanto o narrador descreve em minúcias as mudanças ocorridas nas cidades (São Paulo e Sorocaba), cita os postes da Light (empresa que implantaria a energia elétrica em São Paulo e que virou o símbolo da modernização no sudeste), as personagens, ainda que se desloquem de lugares e de situações, permanecem, ao fim, na mesma condição de pobreza.

A tristeza e melancolia por que passam as personagens se contrasta com o tom extremamente seco e direto do narrador. Embora o narrador seja subjetivo, e se identifique na história como neto de Ana e sobrinho de Ciro, o relato é objetivo. Inclusive, não é por acaso que se escreve aqui “relato”: o texto chega a tal ponto que às vezes mais parece um relatório, uma seqüência de fatos que vão se acumulando e formando o resumo da vida de ambas as personagens, mas com muito pouco espaço para qualquer floreio a mais de palavras. Nos momentos mais emotivos, em que nos preparamos para sentir o sofrimento de Ana ou de Ciro, a palavra nos corta, ríspida, e nos leva ao próximo fato narrado. A narrativa não faz curvas, meneios ou voltas, mas segue retilínea e impassível.

Talvez seja só através desse corte objetivo que personagens como as do livro possam por passar pela dura vida que os abismos entre classes sociais no Brasil lhes impuseram. Afinal, diante da sucessão de infortúnios e dificuldades, conter a subjetividade torna-se um meio de vida. E é assim que Ana suporta o seu trabalho quase que escravo na casa da senhora em Sorocaba e depois suas desilusões em seu casamento, e é assim que Ciro anda todos os dias pela cidade tentando vender a bebida que, ironicamente, tinha sido a que levara sua mãe à desgraça. Por meio da supressão do que é mais subjetivo, assim como ocorre no texto de Modesto Carone, Anas e Ciros do Brasil inteiro vivem nessa condição de invisibilidade social e de estagnação. Não é que eles não sintam, apenas não podem dar vazão a tudo que sentem.

Assim, Modesto Carone faz um retrato sensível, ainda que com o estilo seco, da vida de Ana e Ciro. E é um retrato ainda marcado por um realismo que às vezes nos faz pensar que se trata de uma reportagem, ou um relato biográfico. De fato, há certos elementos da história que são reais, como o próprio autor já afirmou em entrevista. Além disso, a foto que dá a capa ao livro (um equilibrista em Sorocaba) foi feita pelo pai do autor e, de fato, a família dele é de Sorocaba. Um livro que à primeira vista pode parecer muito duro na forma, contém, na verdade, uma suavidade comovente ao nos fazer acompanhar sem pausas e sem alívios histórias de vida tão duras e tristes.

 

A Transvaloração dos Valores Cristãos

Posted in Livros on Janeiro 16, 2012 by maiacat

nota: escrito em 2009

O Anticristo, escrito por Friedrich Nietzsche em 1888, é um ensaio em que o autor procura fundamentar o que ele chama de “condenação eterna” ao cristianismo e sua moral. Com uma linguagem que não hesita em usar adjetivos pouco delicados nem dispensa uma fina ironia, Nietzsche aborda em 62 curtos capítulos diversos aspectos do cristianismo, procurando reduzi-los à mais desprezível forma de pensamento.

            Logo de início, o autor introduz o conceito de décadence, que seria uma forma de corrupção do ser, quando ele passa a preferir o que lhe é prejudicial e a negar, portanto, a própria vida. Nesse sentido, o cristianismo é um niilismo. Pelo resto do livro, diversas argumentações são construídas para provar essa negação da religião cristã à vida. Conforme ele mesmo diz: “A história de Israel é inestimável como história típica de toda desnaturação de todos os valores naturais (…)”. Passa-se, segundo Nietzsche, a preferir o sofrimento, a doença, a pobreza e a subordinação a saúde, riqueza e força. O cristianismo viria de um ressentimento e de um ódio, uma forma das pessoas fracas e doentes de encontrarem nesses “defeitos” um meio de se divinizar, de ter garantida, em uma vida posterior, a bem-aventurança, contra as pessoas já “bem-aventuradas” na vida terrena, que seriam condenadas ao inferno.

            Valoriza-se, portanto, tudo que é contrário à vida. Outra idéia defendida é a de que o cristianismo é contra a realidade. Todos seu conceitos são calcados na “além-vida”, em uma vida que nem se pode provar que existe ou não. Nas palavras do autor:

“Ele [Jesus] fala apenas do que é mais interior: “vida” ou “verdade” ou “luz” são as suas palavras para o que é mais interior – todo o resto, toda a realidade, toda a natureza, a própria linguagem, tem para ele apenas o valor de um símbolo, de uma parábola”. Em outro trecho, ele conclui: “Se entendo alguma coisa desse grande simbolista [Jesus], então é o fato de que ele apenas tomou realidades interiores por realidades, por “verdades” – de que ele entendeu o resto, tudo o que é natural, temporal, especial e história apenas como símbolo (…)”.

            Também é apontada a tendência a não lutar contra o sofrimento, a não opor resistência a quem quiser o mal, a, basicamente, se subordinar a tudo que acontece, pois esse seria o sinal da fé. Em um trecho mais ao fim do livro, Nietzsche diz: “Tudo o que sofre, tudo o que pende da cruz é divino (…) Estamos todos pendurados na cruz, logo nós somos divinos”. Para o autor, esse é um grande atentado a qualquer espírito e inteligência. Outra forma de conter qualquer valor natural é o conceito do pecado, que faz com que todos reprimam a si mesmos quando fazem algo que na verdade é natural e mesmo necessário. A fé é não duvidar, é não pensar, é portanto estar preso a convicções mentirosas. Dessa forma, a religião cristã é também um atentado contra a ciência, contra a busca da verdade, contra a própria filosofia. São essas, além de muitas outras idéias, que Nietzsche usa para tecer sua crítica ao cristianismo.

            No entanto, é importante ressaltar que a principal crítica de Nietzsche é aos valores, é à pretensão de dizer a outros como devem agir e sob quais pressupostos devem nortear sua vida. Assim, Nietzsche não é anti Cristo, e sim contra o que o cristianismo, principalmente o firmado por Paulo, traz às pessoas. Como contraponto, Nietzsche defende escritos orientais, como o “Código de Manu”, um livro indiano, e também faz elogios ao budismo. Enquanto o pensamento oriental seria mais puro e limpo, o cristianismo seria imundo. Até mesmo o autor diz que se deve usar luvas para ler o Novo Testamento, de tão sujo que este seria.

            Com sua ironia que muitas vezes provoca um certo riso ou mesmo uma espécie de consternação, o autor consegue, de uma forma ou de outra, deixar a sua marca no leitor. Talvez não seja possível passar incólume pela leitura de O Anticristo. Até mesmo em um cristão mais fervoroso pode fazer surgir a dúvida ou algum tipo de incômodo. Apesar de suas frases por vezes um tanto exageradas (como ao definir o cristianismo como a maior desgraça da humanidade), a argumentação é sóbria e procura cobrir todos os pontos que poderiam ser usados para “defender” os valores cristãos. Mesmo quando Nietzsche parece conceder alguma razão para o argumento contrário, é para depois destruí-lo fatalmente com seu raciocínio. Surpreende o seu tom ferino principalmente quando pensamos em sua época. E o autor tinha consciência disso: no prefácio ao livro diz que sua obra era destinada a leitores que ainda não existiam, que não pertenciam ao seu tempo. De fato, se a obra ainda hoje pode chocar as pessoas, tentar compreender a reação das pessoas na época em que ela foi escrita é difícil.

Dicionário de nomes próprios

Posted in Livros with tags on Dezembro 6, 2011 by maiacat

Hoje eu li esse livrinho, que é da Amélie Nothomb também. Aliás, tô escrevendo aqui só porque me lembrei do blog porque já falei da autora antes. Será que então sempre escreverei sobre os mesmos assuntos? :D

Esse livrinho é bem curioso, e conta a história de uma menina que eu não consegui decorar como se escreve o nome dela, algo como plerudge? não! é plectrude, agora lembrei (ou dei um google, melhor dizendo). bom, o livro não tem pausas ou respiros, uma coisa vem atrás da outra, e parecem flechadas, você toda hora acha que já pegou o ritmo do livro e a história que ele vai contar, mas daí, pimba, o treco muda totalmente de novo e você fica sem saber com o que está lidando. obviamente não vou dizer em detalhes as tais mudanças, porque isso tiraria toda a graça (ainda que eu não seja do tipo que ache que precise ser surpresa pra ser legal ou interessante).

a capa do livro. só agora percebi que é a sombra de uma bailarina, antes tava vendo tipo um ventre, sei lá!

a narração é seca, direta, e quase que jornalística, vai descrevendo os fatos assim, como se fosse um relatório, ainda que isso não tire, de jeito nenhum, a subjetividade da coisa. me lembrou bastante o estilo de narração do modesto carone em “resumo de ana”, que embora não tenha o mesmo tom meio bizarro/meio fantástico da nothomb, vai descrevendo a vida de uma pessoa nesse estilo seco, jornalístico, de relatório. e, em ambos os casos, o narrador está envolvido de alguma forma com a história, muito claramente no modesto, e nem tanto na amélie.

e digo mais, nos dois os narradores são muito relacionados aos próprios autores. no caso do modesto carone, a história que ele conta de ana tem tudo a ver com a de sua família, as personagens são de sorocaba, como ele, a foto escolhida para a capa do livro foi tirada por um parente dele.. enfim.. eu tenho uma resenha dele que fiz para a faculdade que vou publicar num outro post.

modesto: aguarde sua vez! (aliás, pra quem não sabe, ele é O tradutor de kafka no brasil!)

em resumo? o livro vale a surpresa, é rapidinho e gostoso de ler e é bem curioso. eu não sei ao certo o que o final provocou em mim, acho que fiquei meio sem gostar, mas gostando. não sei, viu?

e um adendo: nunca tinha ouvido fala rno livro, se o li foi porque consegui ele numa troca feita no livralivro.com.br. tô trocando livros loucamente e tendo boas surpresas! acabo pegando livros que não pegaria se fosse em uma livraria.

e um outro adendo: comecei o texto usando maiúsculas, depois desisti, não reparem. sei que elas existem, mas a internet me deixa com ares valter hugo mãezianos! aliás, esse é um ator que vocês precisam ler! depois falo mais dele

Random Texts: O ar que eu mesma expirava me dava cócegas terríveis.doc

Posted in .doc with tags , on Outubro 10, 2011 by maiacat

Texto escrito em junho de 2011, na pasta Meus Documentos:

O ar que eu mesma expirava me dava cócegas terríveis. De algum modo, sempre tinha que mudar de posição o meu braço, ou a minha mão, para que não sentisse o meu próprio ar resvalar neles. O engraçado é que aquela cócega só surgira, aparentemente, há pouco tempo. Nunca havia tido problemas com o meu ar.

Também nunca o sentira faltar tantas vezes, e tão freqüentemente. Me incomodava como às vezes o ar se recusava a chegar fundo, parecia que meu interior era por demais desagradável, então todo o ar logo se esforçava por subir novamente à tona. Me escapando. Me sufocando.

Buscava-o novamente, mais sôfrega e profundamente. Mas mais rápida e eficiente ele me fugia.

Mas quando consigo prendê-lo, ele me faz cócegas.  E eu também não gostava de sentir meu coração bater, como se eu pudesse, então, perceber ele parando de repente. Perceber a traição. Não, seria melhor não saber, quanto menos eu sentisse e soubesse meu coração, melhor.

Hoje pensei em dar uma volta, mas então percebi que melhor seria permanecer sentada. Porque sentada, não haveria surpresas. Seria o mais correto. Soube que uma parente minha morreu, e pensei sobre como as coisas se vão rapidamente, que nem o ar dentro de mim. Pensei que gostaria de tê-la conhecido melhor, pensei na minha avó, que perdia mais uma pessoa. Pensei em como detesto perdas, ainda mais as irreversíveis como as provocadas pela morte, e então me lembrei do poema da Emily Dickinson. Conheci-o pela primeira vez através de um professor de literatura de quem gostava muito, mas que depois se provou um cretino. Ao meu ver, ao menos. Ele usava sapatos compridos, e andava com as pernas abertas, e então dava a impressão de ser um ganso, sem tirar nem pôr, exatamente um ganso. E não um pato ou uma galinha.

Não penso que conseguirei dormir esta noite, já que algumas coisas me deixaram ansiosa. Nada que eu possa resolver, ou nem mesmo exprimir. É que a vida me falta, então eu percebo isso e fico sem saber. Gostaria de ter mais meios, como asas, ou mesmo rodas. Não sei. Talvez gostaria de não ter medo.

Melhor seria, na verdade, se eu tivesse aquela doce e cálida indiferença, que nos mantêm a salvo e numa constante quietude. Imagine eu, quieta: !. Gostaria de saber como é. Embora na verdade eu saiba, é que é difícil eu me deixar ir. Às vezes, é verdade, me esvaio muito fácil, mas sempre estou alerta, no fundo, da mentira que é aquilo tudo.  Acho que seria bom mesmo ter não só a dimensão da real brevidade de tudo, e da real insignificância de tudo, mas daí sempre penso: mas então de quê vale viver? Melhor eu me preocupar com tudo, porque a vida é isso mesmo, e se eu não tiver isso, o que vou ter? Então me falta a dimensão prática disso tudo. Porque… o que coloco no lugar? Uma serenidade?

A serenidade sempre me parece solitária, não sei, companhias mexem com a minha calma. Pessoas me agitam, me irritam, me aborrecem. Posso ser indiferente à maioria, mas ainda assim… me despertam, me afloram. Para ser serena, talvez, e realmente serena, teria que estar só.

Viveria num deserto, talvez. Nessa hora do frio, o calor do sol parece ser algo impossível. Mas é impossível mesmo me esquecer dos calores infernais pelos quais já passei, do suor, do mal estar, da moleza. De entrar na água do mar e perceber que também ela está quente. Não há decepção pior do que essa, aliás. Nunca, até aquele dia, esperara que o mar não fosse me aliviar daquele calor. Quão aflitivo! A sensação é parecida com respirar e não sentir o ar, a propósito.

Um dia eu percebi que talvez as coisas realmente continuem sempre as mesmas. Mas foi então que eu vi o quanto eu tinha mudado, e isso me deixou triste, porque senti que mudei pra pior. Senti que eu deixei tudo que importava ir embora, e fiquei com pouco mais do que um amontoado de papéis e objetos esparsos. Como um cachorro de borracha, que comprei uma vez na banca de revistas. E um binóculo antigo que peguei na casa de uma tia minha, que já se foi. E quanta coisa deixei ir embora… Talvez se eu soubesse o que foram exatamente essas coisas, poderia tentar resgatá-las, mas só o que sei é que sinto vazio. Era mesmo um clichê, mas é por isso mesmo que eles sobrevivem.

E não foi por falta de esforço. Como perfeito produto da minha era, tentei documentar tudo, porque sempre soube o quão facilmente poderia tudo ir embora, sumir, desaparecer. Que pânico sentia eu em perceber que eu não me lembraria daquele dia depois de um tempo, não lembraria nem da roupa, nem do tempo, nem do que eu fizera ou falara. Anotava em lugares, guardava papéis, guardanapos de restaurantes, apoios de copos, fotos, cartas, bilhetes insignificantes, notas fiscais, passagens de ônibus. Tudo numa tentativa fracassada de não deixar se esvaírem das minhas mãos aquilo que por um momento me parecia importante somente por ser tão esquecível.

As coisas grandes, os espetáculos, os momentos marcantes: estes eu não fazia questão de fazer tantos recortes. Sabia que me lembraria deles. Mas e o resto? E a vida toda? Onde ficaria tudo? E com eles, sumiram também aquele meu otimismo, aquele meu riso fácil… hoje sou amarga, e nem sei por quê. Sei que não há motivo bom o suficiente. Afinal, nunca me dei a prerrogativa de ter meus sentimentos justificados. Sempre pensei: não tem por quê, preciso esquecer.

Olho pra tudo em volta, e sinto a angústia de quem sabe que está tudo errado, mas não sabe como começar. Peças de quebra-cabeça sem indicação alguma, as vejo todas do avesso.  Meu corpo parece ter ficado cada vez mais mole, e minha mente cada vez mais sem forma. Sei que os olhos percebem cada vez menos cores. Consigo ver o que é vermelho e o que é preto, o resto está meio apagado. Porque o que mais vejo e sinto são as paixões violentas. Rompantes de raiva, de frustrações e de amor. E também o luto, o esmorecimento, o pesar. As sutilezas se foram há muito tempo.

Por isso que, se estivesse no escuro, só uma cor me faltaria.

O que não deixa de ser irônico, porque sempre fui avessa ao que fosse muito pronunciado ou exagerado. Sempre detestei grandes celebrações, apoteoses de qualquer tipo. Ou o oposto, a total soturnidade, como me irritavam essas coisas: só enxergar e apreciar um único lado das coisas. Como isso poderia ser real? A realidade é toda sutilezas, é toda meios-tons misturados, não é nem uma cor nem outra, a realidade é todo um jogo das luzes que quisermos colocar. E se iluminamos forte demais um ponto, não só outros ficam obscuros, como alguns tons mais delicados do lugar iluminado ficam ofuscados, e deixamos de vê-los também. Então como fora eu mesma me tornar uma pessoa de tons inteiros?

Não o sei.

Mas realmente… parece que algo me prende. Tão bem, que nem percebo. Sinto-me congelar, e tudo o que quer sair parece implodir em lágrimas, em calor nos meus olhos. O corpo parece-me insuficiente para mim mesma, gostaria de assumir outras formas. Gostaria de me transformar em ar. Ou em água. Como me sinto bem na água! Como gosto de me deixar à deriva da água calma, de observar meu cabelo flutuando, quase que me imagino Ofélia, com vitórias-régias a minha volta, e os olhares desesperados sobre mim.

E o silêncio que a água me traz. Não ouço mais nada. Só não gosto quando me aparecem libélulas. Diria até que prefiro marimbondos.

Livros que me marcaram – As Catilinárias, de Amélie Nothomb (e Bartleby, o escrivão de Melville)

Posted in Livros with tags on Outubro 9, 2011 by maiacat

Esse livro me marcou não porque tenha despertado em mim grandes questionamentos filosóficos sobre a vida ou coisa assim, mas porque despertou em mim emoções muito intensas enquanto eu lia. Pra ser mais precisa, me despertou muita raiva. A história é de um casal que se vê todos os dias, à mesma hora, perturbado por um vizinho que toca a campainha, entra e fica em silêncio durante toda a sua (interminável) visita. O casal não consegue compreender, e tenta fugir da situação, mas se vê de algum forma preso, e a frustração vai num crescendo, assim como a incompreensão, a vontade de dar um soco, qualquer coisa que desperte o vizinho. Eu fiquei com muita raiva, e muito confusa.

E agora percebo que isso me toca de uma maneira muito sensível. Quando li Bartleby, o escrivão, do Melville (outro livro que recomendo MUITO!!), também fiquei nesse mesmo estado de “puta que o pariu, que vontade chacoalhar esse Bartleby maldito, fazê-lo reagir, reagir). A história, nesse caso, é de um homem que contrata esse Bartleby, e ao pedir para ele realizar várias tarefas, ele simplesmente responde “prefiro não fazê-lo”. A situação vai se desenvolvendo até ficar insuportável. A gente não sabe conviver com essas coisas. Com pessoas (e situações) que fogem do pressuposto básico, daquele pré-acordo que qualquer comunicação costuma ter, dos papéis já pré-estabelecidos em sociedade. E parece que meras palavras e atitudes simples vão virando uma barreira intransponível, e a gente se frustra, e muito. Porque é incompreensível. Enfim, esses dois livros são fodásticos, e bem curtinhos e fáceis de ler. De ler numa sentada só. E depois ficar com aquele ar de sonho pelo resto do dia.

"I would prefer not to" - AAAHHHHHHHH

Je suis folle

Voltando às Catilinárias, a autora é uma francesa, que sempre escreve livros desse gênero, algo perturbador ou sei lá. Na verdade não tenho muita propriedade porque só li esse livro dela, por enquanto. E comprei no susto, por 3 reais, numa promoção do Extra. Nunca mais vi o livro à venda! Mas tem em sebos. Vejam a foto dela e sintam o estilo de livros (não que eu ache correto julgar o livro pela cara do autor :D ). Mas sempre vejo os livros originais em francês à venda.

Enfim, uma leitura rápida e marcante, recomendadíssima! E em tempo, o título, catilinárias, se refere a uma série de discursos de um romano chamado Marcus Tullius Cicero contra uma tal de Catilina, que devia ser bem chata:

“Até quando, enfim, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda esse teu rancor nos enganará? Até que ponto a (tua) audácia desenfreada se gabará (de nós)?”

Porque é isso: diante de uma pessoa impertubável, que não corresponde às nossas expectativas normais de comunicação e convivência, parece-nos que estamos sendo desafiados, como se estivessem rindo às nossas custas, e, confundidos, nos enraivecemos e não sabemos mais o que fazer.

Cameron Crowe e seus artigos na Rolling Stone

Posted in .cult with tags , on Outubro 9, 2011 by maiacat

Decidi tentar reavivar esse blog abandonado às moscas eletrônicas, começando por um serviço público. Reuni todos os artigos do Cameron Crowe para a Rolling Stone, desde o primeiro até o mais recente. A ordem na verdade é inversa, vai do mais recente ao mais antigo, e tem de tudo: entrevistas com grandes nomes como Neil Young, com o Led Zeppelin, com o Allman Brothers, até com alguns nomes que hoje parecem estranhos a nós, e enfim, tudo muito interessante. Alguns artigos têm comentários do autor. E tá tudo em inglês, são mais de 300 páginas de artigos, algum pode interessar =D  E o grandioso pdf está aqui: http://www.4shared.com/document/Yaip59js/Cameron_Crowe.html.

Em tempo, caso não tenham assistido aos filmes dele, assistam. Em particular eu gosto de Quase Famosos: fez parte da minha adolescência, por muito tempo meu nickname na internet foi Penny Lane, e como eu gostava daquele clima todo dos anos 70, de banda na estrada, da paixão insuportável de tão intensa pela música… e a trilha sonora é ótima.

Inclusive deixo vocês aqui com duas músicas da trilha. A primeira é de uma banda chamada Thunderclap Newman, e a segunda foi feita especialmente para o filme, e é da banda fictícia Stillwater (que na verdade seria o Led Zeppelin na história original, porque o filme é baseado nas experiências do Cameron Crowe como jornalista para a Rolling Stone – e existiu uma banda chamada Stillwater, mas não é a do filme!):

Depois volto com os últimos cds e livros apreciados por myself!

choro azedo

Posted in Randômicas with tags on Agosto 24, 2010 by maiacat

choro azedo é aquele choro estragado: já se chorou tantas vezes pela mesma coisa, que ele já tá velho, já foi chorado muitas vezes. azedou. eu conheço bem esse choro, e arrisco dizer que só não é pior do que aquele choro desesperado, que, de tão inflamado, esgota a si mesmo numa única vez.

o choro azedo chega a uma hora que nem sabe explicar-se. basta uma leve injúria que abra a ferida mal cicatrizada, que ele vem, igual, repetido, como que batendo cartão. e você, tenta em vão controlá-lo: “não vou chorar dessa vez”. mas chora, invariavelmente chora.

e pode se passar tanto tempo que uma hora você não sabe mais o que fazer, o choro ganhou vida própria. já tá velho, estragado, sem sal, mas continua vindo. como esquecer essa mágoa? como não se abater com a mísera lembrança? como nos livrar dessas dores que nunca acabam? podem adormecer por anos, mas voltam, invariavelmente voltam.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.