Posted in Uncategorized on Outubro 30, 2012 by gertrudenotstein

Às vezes você tem que ser miserável. Como se você não pudesse evitar. Você tem que só mergulhar em toda aquela mistura azeda de sentimentos e não pensar a respeito. Não lutar contra. Se você não fizer isso, vai ficar com a respiração presa por dias.

E poucas coisas incomodam mais do que aquele suspiro estrangulado, você pensa que é o peso a mais que você está carregando. Talvez…

Já houve vezes em que eu senti um peso tão grande nas minhas costelas que eu cheguei a acreditar que eu realmente nunca mais respiraria normalmente. É um desespero tão angustiante, e você de repente, nesses momentos, sente que entende todas as poesias já escritas.

Só em momentos muito particulares podemos entender a poesia. Porque na verdade poesia não se lê. Senti-la é o único modo, e por isso a coisa mais narcisista que você pode fazer é entender uma poesia. E a partir do momento em que você a entende, é como se não houvesse diferença entre o texto e você mesmo. E nessas horas de dor e desespero, nós entendemos todas as poesias porque estamos tão concentrados em nós mesmos que fica tudo emocionalmente inteligível. Talvez ler poesia em um momento de extrema felicidade ou tédio o seja assim também, mas acho que quando estou feliz não leio poesias.

Mas. Narcisismo. E os ecos são as rimas.

E poucas coisas me soam mais estranhas do que se sentar para ler um livro de poesias. Assim, como quem lê um romance. Em um mundo ideal, as poesias deveriam estar tão espalhadas quanto possível, nas árvores, postes, vidros de carro, nos asfalto, no letreiro do noticiário. Assim, leríamos as poesias em momentos precisos, espontâneos, e elas caberiam tão perfeitamente, tão calidamente. Poesias precisam ficar na voz, o calor da voz, a frieza da voz, a voz embargada, a voz rouca, a voz frenética. Poesias não são silenciosas. O mundo é uma cacofonia de poesias desesperadas para serem ouvidas.

às vezes eu paro e fico em silêncio, e eu consigo ouvir alguns versos.

Em todo caso… nessas horas em que o ar parece qu enunca mais vai correr livre no nosso peito, e o menor pensamento te causa um frêmito de dor, aquela sensação terrível na espinha, o frio, as borboletas negras no seu estômago. Ou melhor, mariposas no estômago, ásperas.

É estranho como em muitas ocasiões eu estive no sol, e num calor absurdamente sufocante, e de repente um frio inexplicável corria meu corpo. Ainda que estivesse ardendo de calor o tempo todo, ainda que o sol permanecesse ali, aquele instante de calafrio era tão estranho, como uma memória intrusa.

E quando você se sente tão sozinho, porque você percebe que a verdade é que você está sozinho. Você pensa no momento em que você começará a perder as pessoas que você mais ama, e é tudo insuportável. E aí a poesia.

The Wall e seus tijolos

Posted in .cult with tags , , on Outubro 19, 2012 by gertrudenotstein

trabalhinho para a faculdade, de 2009. como escrevi há anos, com certeza ele não resistiria a uma segunda lida minha sem ser estraçalhado. é por isso mesmo que nem vou reler e vou só postar aqui. vai que é útil ou interessante pra alguém. eu lembro q gostei mto de escrevê-lo.

Introdução

Todas as produções artísticas são um reflexo de seu tempo e das experiências do artista. Da mesma forma que não há como desvincular a vida de uma pessoa de sua época, não há como ignorar o contexto em que uma obra foi produzida, ainda que esse não deva ser o único critério de análise. Partindo desse pressuposto é que surgiu a idéia de procurar destacar algumas das influências dos eventos do século XX através da análise de uma obra desse mesmo período. No caso, a escolhida é de 1979: o CD The Wall, da banda inglesa Pink Floyd. Considerado por muitos um dos mais importantes CDs da banda e também do rock, é dividido em duas partes, em que as músicas contam a história de um anti-herói chamado Pink, retratado também em um filme¹ com o mesmo nome. A personagem principal é claramente baseada na vida de Roger Waters, principal letrista da banda, mas também contém traços dos outros integrantes, o que se traduz em significados muito ricos e diversos nas letras. Entretanto, nesse trabalho procuraremos destacar principalmente o aspecto relacionado a eventos históricos.

O século XX

Não faremos uma descrição detalhada do século, e sim uma definição em linhas gerais. Olhando rapidamente as descrições existentes sobre esse passado ainda recente, percebemos que, se há um consenso, é o de que foi um período marcado principalmente pelas guerras, pelo horror que elas trouxeram, pelo surgimento do fascismo, do nazismo e do embate entre comunismo e capitalismo. Palavras como “genocídio”, “massacre”, “horror” e “totalitarismo” são também comuns nesses relatos. Esses eventos marcariam, para Hobsbawm, a “Era da catástrofe”. Mas, segundo ele, houve também a “Era de ouro”, caracterizada pelos grandes avanços tecnológicos, que forneceram, em especial para a classe-média americana, um nível de conforto e facilidade nas condições de vida jamais visto. Nessa visão, o século XX começa com a Primeira Guerra Mundial (1914) e termina com a queda da URSS, ou seja, o fim da Guerra Fria (1991). Para um aprofundamento nesse tema, recomenda-se o livro do próprio Hobsbawm, indicado na bibliografia.

The Wall e seus tijolos

The Wall conta a história de Pink, cujo pai morreu na 2ª Guerra Mundial. O título da obra refere-se à principal metáfora nela presente: cada evento sofrido na vida de Pink transforma-se em um tijolo que ele usa para construir um grande muro que o separaria do resto do mundo, como uma fuga. Já no fim da primeira música, In The Flesh?, ouve-se “Jogue neles!², alusão à bomba que mata seu pai. Sua mãe, sob esse impacto da guerra, é desde o começo superprotetora com o filho. Conforme se depreende das letras, ela transfere nele não só a figura do marido perdido como também seus medos. Assim, o primeiro tijolo é a perda do pai, e podemos dizer que ele foi construído pela mãe de Pink, embora vejamos que ele sofre por essa ausência a sua vida toda, como quando vê crianças com os pais nos parques. Desde o começo vemos a distinção que a personagem faz entre ela mesma e o “resto do mundo”. Os outros, sejam pessoas ou instituições, sempre serão fonte de sofrimento, opressão e desilusão para Pink. Esse dualismo combina bem com sua própria época. Inevitável exemplo disso é a Guerra Fria, que dividia o mundo em dois. Aliás, é interessante notar que o principal símbolo da oposição entre comunismo e capitalismo era um muro, o de Berlim, assim como o muro de Pink representa sua oposição entre ele mesmo e o mundo.

Na segunda música, The Thin Ice, percebemos como Pink é introduzido à vida. Nos primeiros versos, temos: “E o mar pode parecer azul para você, bebê/E o céu pode parecer azul “.O céu e o mar parecem azuis, o que sugere que na realidade são o contrário disso. Ou seja, a paz e  tranqüilidade que o bebê pode ter são ilusórias, e o mundo seria um lugar sombrio. A letra continua com: “Se você for patinar/sobre o fino gelo da vida moderna/arrastando a silenciosa censura/de um milhão de olhos cheio de lágrimas/não fique surpreso/quando uma rachadura no gelo/aparecer sob seus pés”. Note-se que se diz “quando uma rachadura” e não “se”. Assim, esse seria um fato (que faria com que Pink mergulhasse em si mesmo sob o peso de seus medos) já previsto e dado como inevitável. É como se aquele mundo, obscurecido pelas duas guerras mundiais (seriam as vítimas dessas o “milhão de olhos”?) e  pelos conflitos dispersos na Guerra Fria, não oferecesse mais nenhum outro caminho senão aquele. Pink não viveu o período das Guerras Mundiais, mas é afetado por elas. Isso pode ser verificado no filme quando Pink acha o uniforme de guerra de seu pai e algumas balas. Ele o veste tal qual seu pai fazia, como se assumisse em si o parente perdido. Mais tarde, ele usa as balas para colocar em um trilho de trem, querendo ver o estouro que ela produziria ao ser esmagada pelo trem. Nesta cena, Pink, quando o trem passa, vê vários rostos mascarados saindo pelas janelas dos vagões, lembrando-nos judeus sendo levados para os campos de concentração. Ou seja, era uma consciência que ele sempre teria. Mas a “vida moderna” não se limita somente ao efeito do passado, conforme veremos com a quarta e quinta música, The Happiest Days of Our Lives e Another Brick On The Wall (Part 2).

Essas duas músicas tratam do tema da escola como instituição de repressão e conservadorismo. O “dia mais feliz da vida” da primeira refere-se ao primeiro dia de aula. Mas logo a letra diz que haveria “certos professores” que iriam, a todo custo, reprimir as crianças e o que fosse considerado fraqueza nas mesmas. No filme vemos Pink sendo humilhado pelo seu professor, que era, por sua vez, humilhado por sua esposa, sugerindo um ciclo que se repete, conforme diz Bret Urick em The Wall Analysis³. Ou seja, ninguém, na realidade, estaria imune a essa constante vigilância sobre nosso comportamento. Nesse aspecto, The Wall aproxima-se de obras como Admirável Mundo Novo (A. Huxley), ao sugerir uma sociedade em que há a busca pela padronização das pessoas. A segunda música é mais emblemática nesse sentido. No filme, enquanto ela toca, os alunos revoltam-se contra os professores, mas de uma forma um tanto contraditória. Todos eles aparecem uniformizados (e depois com máscaras), marchando como  faziam os exércitos nazistas. O ambiente é o de uma fábrica (o que sugere estandardização dos estudantes pela escola) e os alunos marcham com o hino “Nós não precisamos de educação/ Nós não precisamos de controle de pensamento”, até caírem como bonecos em um processador que os transforma, literalmente, em carne moída. Podemos dizer que essa carne é depois usada para moldar as pessoas conforme a sociedade precisaria. A cena se reverte quando os alunos se revoltam e passam a destruir toda a escola, ateando fogo até nos próprios professores. A dita contradição decorre do fato de que mesmo nesse momento, os alunos parecem seguir apenas um padrão, protegidos pelo anonimato que a massa proporciona, o que traz apenas resultados destrutivos. Ou seja, nessa letra não se faz a defesa de uma abolição das figuras de autoridade, mas uma crítica ao uso feito delas em algumas escolas.

Afinal, foi através das escolas que se uniformizou ideologicamente os jovens dos governos totalitários. Mas mesmo sem propósitos nazi-fascistas, a escola continuaria, de qualquer forma, a servir como um instrumento de controle social em vários países. No ano em que The Wall foi lançado, havia inclusive uma onda crescente de conservadorismo, o que foi consolidado com a chegada de Margareth Thatcher como primeira ministra no poder. Conforme diz Hobsbawm: “Governos de direita ideológica, comprometidos com uma forma extrema de egoísmo comercial (…), chegaram ao poder em vários países por volta de 1980. Entre esses, Ronald Reagan e a confiante e temível sra. Thatcher (…) eram os mais destacados”4,. Assim, é seguro dizer que essa parte do álbum é uma crítica também a esses fatores presentes na vida e formação dos próprios integrantes da banda. Isso é confirmado pelo próprio Roger Waters em uma entrevista5: “Minha vida escolar era bem assim (…) [os professores] não estavam realmente tentando despertar o interesse deles [alunos] em nada, mas só tentando mantê-los quietos e parados, e forçá-los a ficarem na forma certa, de forma que eles pudessem ir à universidade e ‘ir bem'”. A supressão da individualidade foi um dos grandes temas do século XX e podemos dizer que continua a aparecer ainda hoje, como quando vemos milhares de pessoas seguindo um padrão ditado pela mídia.

A seguir, temos Mother e Goodbye, Blue Sky. A primeira começa com a pergunta: “Mãe, você acha que eles jogarão a bomba?”, o que nos remete ao medo de novos ataques nucleares, ou também ao temor de que a Guerra Fria se concretizasse em um confronto direto entre os EUA e a URSS. Pelo resto da letra, vemos Pink com medo de tudo, mesmo de aspectos de sua vida pessoal e a mãe respondendo que ele sempre seria o bebê dela e que ela o ajudaria a construir seu muro. Já na música seguinte, temos: “Você viu os que se assustaram?/você ouviu as bombas caindo?/Você já se perguntou por que tivemos que correr (…) quando a promessa de um admirável mundo novo desapareceu(…)?”. Podemos dizer que com a frase “Adeus, céu azul” há a despedida de Pink de sua infância. No fim da primeira parte, temos ainda novos “tijolos” na vida de Pink (agora adulto), sendo o principal deles um casamento fracassado. Pink torna-se cada vez mais alienado ao mundo, assistindo à televisão o dia todo, completamente entorpecido. Enquanto isso, descobrimos que ele virou um rock star (mas não é claro como isso acontece), e todos idolatram-no cegamente, o que lhe dá uma sensação de impunidade. A última música chama-se “Goodbye, Cruel World” e, nessa leitura, representa a finalização do muro em torno de Pink, ou seja, sua completa separação.

A segunda parte mostra Pink enlouquecido, com digressões que vão desde soldados voltando da Segunda Guerra (quando não encontra seu pai) a lembranças desconexas de sua infância e de sua ex-mulher que não atendia suas ligações. O estopim é quando ele tem um colapso e é tratado (como conta a música “Comfortably Numb”) para que voltasse à consciência e fizesse um show na mesma noite. A partir daí, no filme, sem qualquer explicação, vemos Pink transformado em um ditador, dizendo para a população na música In The Flesh: “Então vocês acharam que iriam gostar de vir ao show (…) Há algum gay aqui hoje à noite?/Coloque ele contra o muro! (…)/Aquele ali parece judeu!/E o outro é um preto!/Quem deixou essa escória entrar? (…)/Se eu pudesse, explodiria todos eles!”. O governo de Pink se assemelha aos nazi-fascistas ao ter massas uniformizadas, o uso de um grande símbolo (no caso, dois martelos cruzados) e a perseguição a minorias.

Embora não haja lógica em como isso aconteceu e não fiquemos sabendo até que ponto é a imaginação de Pink ou a realidade, isso representa, sem dúvida, a marca que os governos totalitários deixaram. Contudo, não é só isso. Waters diz, em entrevistas, que a idéia para o CD surgiu primeiro do fato de que em suas turnês ele percebeu uma idolatria tal de seus fãs que ele poderia cuspir neles e eles nada fariam6,. Isso deixou-o de certa forma enojado e com a sensação de que poderia qualquer coisa, como acontece com Pink. Podemos entender esse evento na vida de Pink como uma constatação desse entorpecimento das massas, que ficariam completamente ludibriadas por governos, bandas, produtos, enfim, qualquer coisa que conseguisse conquistá-las. Assim, é como se as pessoas ficassem cada vez mais alienadas e à mercê do que a mídia dizia. Se pensarmos o lugar e época do CD, quando a propaganda era mais do que nunca utilizada para convencer as pessoas de como o capitalismo era melhor e criava modismos sobre o que deveriam comprar, vermos as pessoas seguindo um líder desequilibrado como Pink serve como um alerta a esse fato.

Entretanto, sem sabermos direito como, Pink acaba abandonando o governo na música Stop e diz precisar saber se é culpado de alguma coisa. Assim, é levado a julgamento, o que é o fim do CD, com The Trial e Outside The Wall. A mesma sociedade que o apoiara agora condenava-o, dizendo ironicamente que Pink fora “pego em flagrante mostrando sentimentos (…) de uma natureza quase que humana”, e mandando chamar o diretor da escola. A sentença para Pink é que seu muro seja destruído. Assim, ele é ruído e Pink vê-se diante do mundo do qual ele sempre tentara fugir. No filme, vemos diversas crianças pegando os tijolos caídos. Concluímos a partir daí que na realidade o caso de Pink era só mais um, pois esse era um ciclo que ainda iria se repetir com cada criança construindo o próprio muro. Assim, as cicatrizes do século XX, a opressão da sociedade e o individualismo exagerado seriam sempre tijolos na vida de cada um.

 

Notas

1- O filme, Pink Floyd The Wall, saiu em 1982 e foi dirigido pelo diretor britânico Alan Parker. O roteiro foi escrito por Roger Waters (vocalista e baixista da banda).

2 – Esse trecho da música foi livremente traduzido, assim como todos os outros trechos de música e entrevistas apresentados no trabalho.

3 –  Essa análise foi feita informalmente através um site, cujo endereço consta na bibliografia.

4 – Trecho retirado de Era dos Extremos – O breve século XX: 1914 – 1991, de Eric Hobsbawm.

5 – Essa entrevista, concedida durante um programa de rádio, está disponível online e seu endereço consta na bibliografia.

6 – É sabido que Roger Waters, de fato, chegou a cuspir em um fã apenas “porque podia”, como que para comprovar o que lhe parecia como uma idolatria exagerada.

Referências Bibliográficas

HOBSBAWM, Eric J. – Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991, 2ª Edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

URICK, Brett – The Wall Analysis. Disponível em: http://www.thewallanalysis.com. Acessado em: 18/05/2009.

Entrevista concedida por Roger Waters em 1979 a Tommy Vance disponível em:  http://www.pinkfloydz.com/rwinttommyvance1979.htm. Acessado em: 18/05/2009.

Posted in Randômicas on Outubro 12, 2012 by gertrudenotstein

so, i had written A WHOLE bunch of stuff in here, saying a lot of stuff that had to be said – to myself, sure – with highly poetics descriptions of my dreams and nightmares and stuff (like hair silently dancing in the water and my cat with a nasty and aggressive voice), and about me breathing, and about me coping, and about all that stuff, and thanks to wordpress, i’ve lost it all.

i could say that i’d keep to paper and pen, but i’ve also lost my notebook – bought in argentina and with a lot of also insightful stuff. why? why do i lose this? when i’ve never lost this kind of stuff before? oh man, it’s just painful. it’s painful because part of me is in these stuff. i put myself in them. i really do. writing for me is visceral, even though i know that what i write is shit for other people. but so is my spit, you know, when i spit, it’s gross, but i put myself in that spit, and with my words i spit my very own soul.

A supressão de Ana

Posted in Livros on Janeiro 17, 2012 by gertrudenotstein

de 2011

Em Resumo de Ana e Ciro, as duas partes que compõem a obra de Modesto Carone, relata-se a história de mãe e filho, narrada pelo neto da primeira e sobrinho do segundo.  Ana nasceu pobre, e ao virar órfã, foi “adotada” por uma senhora, indo lá trabalhar em serviços domésticos e como babá. Mais tarde, ela trabalharia como governanta em uma casa em São Paulo, onde conheceria a ópera e se apaixonaria pelo que ela representava. Pela vida toda almejaria sair arrumada elegantemente, para freqüentar os espaços mais elitizados de São Paulo, desejo que não seria compartilhado por seu marido. Apesar de abortar os primeiros filhos, ela enfim consegue dar luz à Lazinha, mãe do narrador. Além dela, viriam Zilda e Ciro. A trajetória de Ana vai ficando cada vez mais melancólica, à medida em que seus desentendimentos com o marido crescem e ela vê afastados seus sonhos. Ela sofre violência doméstica, e sofre também com a falência de seu marido, que passa a ficar cada vez mais ausente, indo trabalhar como vendedor ambulante de remédios. Cada vez mais entregue à bebida, Ana vai se afundando irrecuperavelmente.

Já Ciro, filho desprezado pela mãe e pelas irmãs, passa a acompanhar seu pai nas viagens logo cedo. Sua história não será muito mais feliz tampouco. Sua vida é toda de dificuldades, embora por alguns raros momentos sua vida se encaminhasse como quando passou a prestar serviços de gráfica. No final, ele volta a ser um vendedor ambulante pela rua, como no começo de sua vida com seu pai. Também Ana termina, de certa forma, como começou: sozinha e pobre.

Ambas as trajetórias somam quase um século inteiro, em um período de intensa modernização e industrialização do Brasil. No entanto, ao contrário desse pano de fundo de dinamicidade e mudanças, as personagens parecem estagnadas. Quando há movimento, ele é circular: volta-se sempre ao ponto inicial. Assim, enquanto o narrador descreve em minúcias as mudanças ocorridas nas cidades (São Paulo e Sorocaba), cita os postes da Light (empresa que implantaria a energia elétrica em São Paulo e que virou o símbolo da modernização no sudeste), as personagens, ainda que se desloquem de lugares e de situações, permanecem, ao fim, na mesma condição de pobreza.

A tristeza e melancolia por que passam as personagens se contrasta com o tom extremamente seco e direto do narrador. Embora o narrador seja subjetivo, e se identifique na história como neto de Ana e sobrinho de Ciro, o relato é objetivo. Inclusive, não é por acaso que se escreve aqui “relato”: o texto chega a tal ponto que às vezes mais parece um relatório, uma seqüência de fatos que vão se acumulando e formando o resumo da vida de ambas as personagens, mas com muito pouco espaço para qualquer floreio a mais de palavras. Nos momentos mais emotivos, em que nos preparamos para sentir o sofrimento de Ana ou de Ciro, a palavra nos corta, ríspida, e nos leva ao próximo fato narrado. A narrativa não faz curvas, meneios ou voltas, mas segue retilínea e impassível.

Talvez seja só através desse corte objetivo que personagens como as do livro possam por passar pela dura vida que os abismos entre classes sociais no Brasil lhes impuseram. Afinal, diante da sucessão de infortúnios e dificuldades, conter a subjetividade torna-se um meio de vida. E é assim que Ana suporta o seu trabalho quase que escravo na casa da senhora em Sorocaba e depois suas desilusões em seu casamento, e é assim que Ciro anda todos os dias pela cidade tentando vender a bebida que, ironicamente, tinha sido a que levara sua mãe à desgraça. Por meio da supressão do que é mais subjetivo, assim como ocorre no texto de Modesto Carone, Anas e Ciros do Brasil inteiro vivem nessa condição de invisibilidade social e de estagnação. Não é que eles não sintam, apenas não podem dar vazão a tudo que sentem.

Assim, Modesto Carone faz um retrato sensível, ainda que com o estilo seco, da vida de Ana e Ciro. E é um retrato ainda marcado por um realismo que às vezes nos faz pensar que se trata de uma reportagem, ou um relato biográfico. De fato, há certos elementos da história que são reais, como o próprio autor já afirmou em entrevista. Além disso, a foto que dá a capa ao livro (um equilibrista em Sorocaba) foi feita pelo pai do autor e, de fato, a família dele é de Sorocaba. Um livro que à primeira vista pode parecer muito duro na forma, contém, na verdade, uma suavidade comovente ao nos fazer acompanhar sem pausas e sem alívios histórias de vida tão duras e tristes.

 

A Transvaloração dos Valores Cristãos

Posted in Livros on Janeiro 16, 2012 by gertrudenotstein

nota: escrito em 2009

O Anticristo, escrito por Friedrich Nietzsche em 1888, é um ensaio em que o autor procura fundamentar o que ele chama de “condenação eterna” ao cristianismo e sua moral. Com uma linguagem que não hesita em usar adjetivos pouco delicados nem dispensa uma fina ironia, Nietzsche aborda em 62 curtos capítulos diversos aspectos do cristianismo, procurando reduzi-los à mais desprezível forma de pensamento.

            Logo de início, o autor introduz o conceito de décadence, que seria uma forma de corrupção do ser, quando ele passa a preferir o que lhe é prejudicial e a negar, portanto, a própria vida. Nesse sentido, o cristianismo é um niilismo. Pelo resto do livro, diversas argumentações são construídas para provar essa negação da religião cristã à vida. Conforme ele mesmo diz: “A história de Israel é inestimável como história típica de toda desnaturação de todos os valores naturais (…)”. Passa-se, segundo Nietzsche, a preferir o sofrimento, a doença, a pobreza e a subordinação a saúde, riqueza e força. O cristianismo viria de um ressentimento e de um ódio, uma forma das pessoas fracas e doentes de encontrarem nesses “defeitos” um meio de se divinizar, de ter garantida, em uma vida posterior, a bem-aventurança, contra as pessoas já “bem-aventuradas” na vida terrena, que seriam condenadas ao inferno.

            Valoriza-se, portanto, tudo que é contrário à vida. Outra idéia defendida é a de que o cristianismo é contra a realidade. Todos seu conceitos são calcados na “além-vida”, em uma vida que nem se pode provar que existe ou não. Nas palavras do autor:

“Ele [Jesus] fala apenas do que é mais interior: “vida” ou “verdade” ou “luz” são as suas palavras para o que é mais interior – todo o resto, toda a realidade, toda a natureza, a própria linguagem, tem para ele apenas o valor de um símbolo, de uma parábola”. Em outro trecho, ele conclui: “Se entendo alguma coisa desse grande simbolista [Jesus], então é o fato de que ele apenas tomou realidades interiores por realidades, por “verdades” – de que ele entendeu o resto, tudo o que é natural, temporal, especial e história apenas como símbolo (…)”.

            Também é apontada a tendência a não lutar contra o sofrimento, a não opor resistência a quem quiser o mal, a, basicamente, se subordinar a tudo que acontece, pois esse seria o sinal da fé. Em um trecho mais ao fim do livro, Nietzsche diz: “Tudo o que sofre, tudo o que pende da cruz é divino (…) Estamos todos pendurados na cruz, logo nós somos divinos”. Para o autor, esse é um grande atentado a qualquer espírito e inteligência. Outra forma de conter qualquer valor natural é o conceito do pecado, que faz com que todos reprimam a si mesmos quando fazem algo que na verdade é natural e mesmo necessário. A fé é não duvidar, é não pensar, é portanto estar preso a convicções mentirosas. Dessa forma, a religião cristã é também um atentado contra a ciência, contra a busca da verdade, contra a própria filosofia. São essas, além de muitas outras idéias, que Nietzsche usa para tecer sua crítica ao cristianismo.

            No entanto, é importante ressaltar que a principal crítica de Nietzsche é aos valores, é à pretensão de dizer a outros como devem agir e sob quais pressupostos devem nortear sua vida. Assim, Nietzsche não é anti Cristo, e sim contra o que o cristianismo, principalmente o firmado por Paulo, traz às pessoas. Como contraponto, Nietzsche defende escritos orientais, como o “Código de Manu”, um livro indiano, e também faz elogios ao budismo. Enquanto o pensamento oriental seria mais puro e limpo, o cristianismo seria imundo. Até mesmo o autor diz que se deve usar luvas para ler o Novo Testamento, de tão sujo que este seria.

            Com sua ironia que muitas vezes provoca um certo riso ou mesmo uma espécie de consternação, o autor consegue, de uma forma ou de outra, deixar a sua marca no leitor. Talvez não seja possível passar incólume pela leitura de O Anticristo. Até mesmo em um cristão mais fervoroso pode fazer surgir a dúvida ou algum tipo de incômodo. Apesar de suas frases por vezes um tanto exageradas (como ao definir o cristianismo como a maior desgraça da humanidade), a argumentação é sóbria e procura cobrir todos os pontos que poderiam ser usados para “defender” os valores cristãos. Mesmo quando Nietzsche parece conceder alguma razão para o argumento contrário, é para depois destruí-lo fatalmente com seu raciocínio. Surpreende o seu tom ferino principalmente quando pensamos em sua época. E o autor tinha consciência disso: no prefácio ao livro diz que sua obra era destinada a leitores que ainda não existiam, que não pertenciam ao seu tempo. De fato, se a obra ainda hoje pode chocar as pessoas, tentar compreender a reação das pessoas na época em que ela foi escrita é difícil.

Dicionário de nomes próprios

Posted in Livros with tags on Dezembro 6, 2011 by gertrudenotstein

Hoje eu li esse livrinho, que é da Amélie Nothomb também. Aliás, tô escrevendo aqui só porque me lembrei do blog porque já falei da autora antes. Será que então sempre escreverei sobre os mesmos assuntos? 😀

Esse livrinho é bem curioso, e conta a história de uma menina que eu não consegui decorar como se escreve o nome dela, algo como plerudge? não! é plectrude, agora lembrei (ou dei um google, melhor dizendo). bom, o livro não tem pausas ou respiros, uma coisa vem atrás da outra, e parecem flechadas, você toda hora acha que já pegou o ritmo do livro e a história que ele vai contar, mas daí, pimba, o treco muda totalmente de novo e você fica sem saber com o que está lidando. obviamente não vou dizer em detalhes as tais mudanças, porque isso tiraria toda a graça (ainda que eu não seja do tipo que ache que precise ser surpresa pra ser legal ou interessante).

a capa do livro. só agora percebi que é a sombra de uma bailarina, antes tava vendo tipo um ventre, sei lá!

a narração é seca, direta, e quase que jornalística, vai descrevendo os fatos assim, como se fosse um relatório, ainda que isso não tire, de jeito nenhum, a subjetividade da coisa. me lembrou bastante o estilo de narração do modesto carone em “resumo de ana”, que embora não tenha o mesmo tom meio bizarro/meio fantástico da nothomb, vai descrevendo a vida de uma pessoa nesse estilo seco, jornalístico, de relatório. e, em ambos os casos, o narrador está envolvido de alguma forma com a história, muito claramente no modesto, e nem tanto na amélie.

e digo mais, nos dois os narradores são muito relacionados aos próprios autores. no caso do modesto carone, a história que ele conta de ana tem tudo a ver com a de sua família, as personagens são de sorocaba, como ele, a foto escolhida para a capa do livro foi tirada por um parente dele.. enfim.. eu tenho uma resenha dele que fiz para a faculdade que vou publicar num outro post.

modesto: aguarde sua vez! (aliás, pra quem não sabe, ele é O tradutor de kafka no brasil!)

em resumo? o livro vale a surpresa, é rapidinho e gostoso de ler e é bem curioso. eu não sei ao certo o que o final provocou em mim, acho que fiquei meio sem gostar, mas gostando. não sei, viu?

e um adendo: nunca tinha ouvido fala rno livro, se o li foi porque consegui ele numa troca feita no livralivro.com.br. tô trocando livros loucamente e tendo boas surpresas! acabo pegando livros que não pegaria se fosse em uma livraria.

e um outro adendo: comecei o texto usando maiúsculas, depois desisti, não reparem. sei que elas existem, mas a internet me deixa com ares valter hugo mãezianos! aliás, esse é um ator que vocês precisam ler! depois falo mais dele

Random Texts: O ar que eu mesma expirava me dava cócegas terríveis.doc

Posted in .doc with tags , on Outubro 10, 2011 by gertrudenotstein

Texto escrito em junho de 2011, na pasta Meus Documentos:

O ar que eu mesma expirava me dava cócegas terríveis. De algum modo, sempre tinha que mudar de posição o meu braço, ou a minha mão, para que não sentisse o meu próprio ar resvalar neles. O engraçado é que aquela cócega só surgira, aparentemente, há pouco tempo. Nunca havia tido problemas com o meu ar.

Também nunca o sentira faltar tantas vezes, e tão freqüentemente. Me incomodava como às vezes o ar se recusava a chegar fundo, parecia que meu interior era por demais desagradável, então todo o ar logo se esforçava por subir novamente à tona. Me escapando. Me sufocando.

Buscava-o novamente, mais sôfrega e profundamente. Mas mais rápida e eficiente ele me fugia.

Mas quando consigo prendê-lo, ele me faz cócegas.  E eu também não gostava de sentir meu coração bater, como se eu pudesse, então, perceber ele parando de repente. Perceber a traição. Não, seria melhor não saber, quanto menos eu sentisse e soubesse meu coração, melhor.

Hoje pensei em dar uma volta, mas então percebi que melhor seria permanecer sentada. Porque sentada, não haveria surpresas. Seria o mais correto. Soube que uma parente minha morreu, e pensei sobre como as coisas se vão rapidamente, que nem o ar dentro de mim. Pensei que gostaria de tê-la conhecido melhor, pensei na minha avó, que perdia mais uma pessoa. Pensei em como detesto perdas, ainda mais as irreversíveis como as provocadas pela morte, e então me lembrei do poema da Emily Dickinson. Conheci-o pela primeira vez através de um professor de literatura de quem gostava muito, mas que depois se provou um cretino. Ao meu ver, ao menos. Ele usava sapatos compridos, e andava com as pernas abertas, e então dava a impressão de ser um ganso, sem tirar nem pôr, exatamente um ganso. E não um pato ou uma galinha.

Não penso que conseguirei dormir esta noite, já que algumas coisas me deixaram ansiosa. Nada que eu possa resolver, ou nem mesmo exprimir. É que a vida me falta, então eu percebo isso e fico sem saber. Gostaria de ter mais meios, como asas, ou mesmo rodas. Não sei. Talvez gostaria de não ter medo.

Melhor seria, na verdade, se eu tivesse aquela doce e cálida indiferença, que nos mantêm a salvo e numa constante quietude. Imagine eu, quieta: !. Gostaria de saber como é. Embora na verdade eu saiba, é que é difícil eu me deixar ir. Às vezes, é verdade, me esvaio muito fácil, mas sempre estou alerta, no fundo, da mentira que é aquilo tudo.  Acho que seria bom mesmo ter não só a dimensão da real brevidade de tudo, e da real insignificância de tudo, mas daí sempre penso: mas então de quê vale viver? Melhor eu me preocupar com tudo, porque a vida é isso mesmo, e se eu não tiver isso, o que vou ter? Então me falta a dimensão prática disso tudo. Porque… o que coloco no lugar? Uma serenidade?

A serenidade sempre me parece solitária, não sei, companhias mexem com a minha calma. Pessoas me agitam, me irritam, me aborrecem. Posso ser indiferente à maioria, mas ainda assim… me despertam, me afloram. Para ser serena, talvez, e realmente serena, teria que estar só.

Viveria num deserto, talvez. Nessa hora do frio, o calor do sol parece ser algo impossível. Mas é impossível mesmo me esquecer dos calores infernais pelos quais já passei, do suor, do mal estar, da moleza. De entrar na água do mar e perceber que também ela está quente. Não há decepção pior do que essa, aliás. Nunca, até aquele dia, esperara que o mar não fosse me aliviar daquele calor. Quão aflitivo! A sensação é parecida com respirar e não sentir o ar, a propósito.

Um dia eu percebi que talvez as coisas realmente continuem sempre as mesmas. Mas foi então que eu vi o quanto eu tinha mudado, e isso me deixou triste, porque senti que mudei pra pior. Senti que eu deixei tudo que importava ir embora, e fiquei com pouco mais do que um amontoado de papéis e objetos esparsos. Como um cachorro de borracha, que comprei uma vez na banca de revistas. E um binóculo antigo que peguei na casa de uma tia minha, que já se foi. E quanta coisa deixei ir embora… Talvez se eu soubesse o que foram exatamente essas coisas, poderia tentar resgatá-las, mas só o que sei é que sinto vazio. Era mesmo um clichê, mas é por isso mesmo que eles sobrevivem.

E não foi por falta de esforço. Como perfeito produto da minha era, tentei documentar tudo, porque sempre soube o quão facilmente poderia tudo ir embora, sumir, desaparecer. Que pânico sentia eu em perceber que eu não me lembraria daquele dia depois de um tempo, não lembraria nem da roupa, nem do tempo, nem do que eu fizera ou falara. Anotava em lugares, guardava papéis, guardanapos de restaurantes, apoios de copos, fotos, cartas, bilhetes insignificantes, notas fiscais, passagens de ônibus. Tudo numa tentativa fracassada de não deixar se esvaírem das minhas mãos aquilo que por um momento me parecia importante somente por ser tão esquecível.

As coisas grandes, os espetáculos, os momentos marcantes: estes eu não fazia questão de fazer tantos recortes. Sabia que me lembraria deles. Mas e o resto? E a vida toda? Onde ficaria tudo? E com eles, sumiram também aquele meu otimismo, aquele meu riso fácil… hoje sou amarga, e nem sei por quê. Sei que não há motivo bom o suficiente. Afinal, nunca me dei a prerrogativa de ter meus sentimentos justificados. Sempre pensei: não tem por quê, preciso esquecer.

Olho pra tudo em volta, e sinto a angústia de quem sabe que está tudo errado, mas não sabe como começar. Peças de quebra-cabeça sem indicação alguma, as vejo todas do avesso.  Meu corpo parece ter ficado cada vez mais mole, e minha mente cada vez mais sem forma. Sei que os olhos percebem cada vez menos cores. Consigo ver o que é vermelho e o que é preto, o resto está meio apagado. Porque o que mais vejo e sinto são as paixões violentas. Rompantes de raiva, de frustrações e de amor. E também o luto, o esmorecimento, o pesar. As sutilezas se foram há muito tempo.

Por isso que, se estivesse no escuro, só uma cor me faltaria.

O que não deixa de ser irônico, porque sempre fui avessa ao que fosse muito pronunciado ou exagerado. Sempre detestei grandes celebrações, apoteoses de qualquer tipo. Ou o oposto, a total soturnidade, como me irritavam essas coisas: só enxergar e apreciar um único lado das coisas. Como isso poderia ser real? A realidade é toda sutilezas, é toda meios-tons misturados, não é nem uma cor nem outra, a realidade é todo um jogo das luzes que quisermos colocar. E se iluminamos forte demais um ponto, não só outros ficam obscuros, como alguns tons mais delicados do lugar iluminado ficam ofuscados, e deixamos de vê-los também. Então como fora eu mesma me tornar uma pessoa de tons inteiros?

Não o sei.

Mas realmente… parece que algo me prende. Tão bem, que nem percebo. Sinto-me congelar, e tudo o que quer sair parece implodir em lágrimas, em calor nos meus olhos. O corpo parece-me insuficiente para mim mesma, gostaria de assumir outras formas. Gostaria de me transformar em ar. Ou em água. Como me sinto bem na água! Como gosto de me deixar à deriva da água calma, de observar meu cabelo flutuando, quase que me imagino Ofélia, com vitórias-régias a minha volta, e os olhares desesperados sobre mim.

E o silêncio que a água me traz. Não ouço mais nada. Só não gosto quando me aparecem libélulas. Diria até que prefiro marimbondos.