de 2007 – blé.doc

Naquele dia eu acordara com uma terrível sensação de perda. Abri os olhos e os primeiros sons do dia me pareceram notas melancólicas, fúnebres. Gotas de orvalho pingavam sôfrega e pesadamente nas folhas, em meio a um pio fraco de um passarinho pouco inspirado e o uivo inconsolável do vento, que parecia envolver todo o resto. Levantei-me artordoado, pensando haver uma densa névoa obscurecendo minha visão, mas não, estava tudo claro quando abri a janela. O dia mostrava-se ensolarado e nada confirmava a minha impressão tão pessimista.

Desejaram-me bom dia alegremente, eu comprei o jornal e a primeira notícia discorria sobre um evento cultural: nada triste, nada trágico. Mas ainda assim eu continuava a sentir meus passos pesarem, o vento frio e úmido confranger meu peito e um ar doentio em tudo que eu via. Nada compactuava com o meu estranho torpor, nada, até aquele momento.

Foi logo depois do almoço e da conversa difusa e non sense de quem quer que estivesse me acompanhando. Saí do restaurante para a calçada e, num repente, pensei ter divisado por entre a névoa um inseto qualquer, voando desesperado em minha direção. Desvencilhei-me rapidamente, sentindo suas asinhas resvalarem em minha orelha, como teria que fazer novamente na próxima esquina, quando outros dois novamente voaram descontrolados como que para atingir o meu rosto. Pelo resto do dia, em cada rua, na sala do escritório, quando saí para comprar cigarros e até mesmo quando procurava um número de telefone perdido, episódios assim se sucederam.

Borboletas, mosquitos de todos os tipos, abelhas, mariposas, libélulas, baratas, todos com suas asas viscosas, o aspecto luzidio, as estruturas ora pegajosas, ora ásperas, sempre com um inconfundível ar de urgência e medo. Era como se estivessem rodeados pela mesma névoa, pelos mesmos sons e imagens tristes, obscuros, incompreensíveis. Como se eu fosse a única coisa que eles pudessem ver claramente, da mesma forma que só eles se sobressaíam na paisagem confusa que eu enxergava.

Não tive nojo, desprezo, nem medo, e sim uma inesperada sensação solidária. Era um múto entendimento entre mim e aqueles insetos, que nunca haviam significado nada para mim até aquele momento. Sentia que éramos todos estrangeiros perdidos no mesmo mundo estranho e desconhecido, mas, mesmo assim, eu continuava a me afastar deles mecanicamente: nós sabíamos que eu nada poderia fazer por eles, nem eles por mim e talvez fosse isso o mais desesperador.

Naquela noite eu não consegui dormir, embora ela tenha parecido o mais estranho sonhos de todos. Sentia multidões de pequenos voadores à minha espreita, nos vãos do meu quarto, nas frestas da janela e da porta, embaixo da minha cama; todos esperando por algum movimento meu, para então me seguir, tentar ir ao meu encontro, agarrar-me de alguma forma. Permaneci imóvel o tempo todo, respirando pausadamente, procurando ignorar o som insuportável de todas aquelas asas, todos aqueles murmúrios sombrios e quase que rastejantes, pegajosos à minha volta. De alguma forma, eu tinha a esperança de que conforme o novo dia surgisse, todos eles fossem embora e eu poderia, no futuro, me perguntar se aquele dia fora apenas uma alucinação. Mas, ao entrever o primeiro sinal de que o sol subia, senti um calafrio que me fez estremecer inteiro e perceber que não, eles não iriam sair dali. Ainda estavam todos lá, como que sentinelas, embora nada silenciosas. O zumbido incessante misturava-se aos pensamentos confusos que agitavam-se na minha cabeça. Eu não me importava, realmente, com todos eles e era isso que me deixava assustado.

Sentir o chão frio foi uma estranha lembrança da realidade. Surgiam na minha mente imagens apagandas de um outro mundo, com outras cores, outros sons, outros dias. A névoa talvez tivesse se dissipado aos meus olhos, mas o que me parecia ser real estava embaçado. Só os sons e as minhas sensações eram multiplicados, o resto ficava em segundo plano, como que um universo à parte. A toda hora eu esperava tudo sumir e eu me dar conta de que nada daquilo acontecia, mas o ar modorrento continuava ali, bafejando no meu corpo. Sentindo uma necessidade desesperadora de sair de casa, experimentei dar um passo à frente. Foi automático: como se a noite toda só tivessem esperado por isso, todas aquelas criaturas começaram a voar ao meu lado de pronto, quase que se empurrando para ficarem mais próximas do meu rosto. Não via outra saída, então continuei o meu trajeto até a porta do quarto, onde, mais uma vez, eu parei. No corredor havia outros milhares, todos me esperando.

Resolvendo adiar o corredor, fui me trocar. Voavam à minha volta, agitados, grudavam-se na minha camiseta, depois no meus ombros, para sair logo depois quando eu punha a camisa para o trabalho. Tirando alguns deles dos meus sapatos, calcei-me e entrei no corredor. Os que estavam lá simplesmente se agruparam aos outros e eu pude seguir em direção à rua, com aquela agora gigantesca sombra disforme e asquerosa. Mas o resto continuava tudo normal, exatamente como nos outros, agora estranhos e irreais, dias de minha vida.

As pessoas ao me darem bom-dia apenas se afastavam um pouco para o lado, como se nada daquilo fosse anormal ou inesperado. Somente procuravam me evitar, sem revelar nenhuma surpresa, nenhum nojo. Por um breve momento me vi delirando pensando haver uma conspiração, todos os insetos mancomunados com o resto das pessoas, apenas para me perseguir daquela forma bizarra. Mas logo recobrei os pensamentos normais quando percebi que ninguém ousara chegar perto de mim no trabalho. Sempre me interfonavam no ramal da minha sala, mas nunca se aproximando. Fax, e-mails, telefonemas o dia todo, substituindo toda e qualquer conversa que eu estava acostumado a ter, transmitindo todo o tiop de coisa, menos comentários sobre o que me acontecia. Nem mesmo uma pergunta, algum pedido de explicação, nada. Quando eu chamava, pareciam não ouvir, quando eu passava, desviavam-se como eu me desviava no começo dos primeiros mosquitos. De repente, vi-me isolado em um mundo completamente meu, como se eu mesmo tivesse virado um daqueles insetos, desprezado e ignorado por todos.

Na maior parte do tempo conseguia ignorar tudo aquilo, concentrando-me cada vez mais em cada pequena coisa que me via obrigado a fazer no trabalho ou em casa. Cada minuto era só a espera para o próximo chegar, numa sucessão de dias indefinidos, inúteis, vazios. De alguma forma parecia tudo inevitável para mim e eu me conformava sem estranhar ou questionar, sem nem reclamar do fato de até mesmo minha mãe não mais ousar dirigir a palavra a mim desde aquele dia. Mas era impossível evitar aqueles momentos de repentina lucidez e desespero, quando as duas realidades se chocavam e eu me perdia nas cores, nos sons, nas rotinas, imaginando como seria o fim disso tudo. Ainda vejo toda vez a imagem nítida de eu mesmo morto, sozinho, e ninguém por perto, ninguém a não ser os milhares de insetos me velando, zumbindo para sempre.

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Uma resposta to “de 2007 – blé.doc”

  1. O problema desse texto, fora os aspectos formais mal trabalhados, é que em vez de demonstrar, ele conta, de uma forma até constrangedora. É o que posso dizer voltando a lê-lo agora.

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