Arquivo de Agosto, 2010

choro azedo

Posted in Randômicas with tags on Agosto 24, 2010 by gertrudenotstein

choro azedo é aquele choro estragado: já se chorou tantas vezes pela mesma coisa, que ele já tá velho, já foi chorado muitas vezes. azedou. eu conheço bem esse choro, e arrisco dizer que só não é pior do que aquele choro desesperado, que, de tão inflamado, esgota a si mesmo numa única vez.

o choro azedo chega a uma hora que nem sabe explicar-se. basta uma leve injúria que abra a ferida mal cicatrizada, que ele vem, igual, repetido, como que batendo cartão. e você, tenta em vão controlá-lo: “não vou chorar dessa vez”. mas chora, invariavelmente chora.

e pode se passar tanto tempo que uma hora você não sabe mais o que fazer, o choro ganhou vida própria. já tá velho, estragado, sem sal, mas continua vindo. como esquecer essa mágoa? como não se abater com a mísera lembrança? como nos livrar dessas dores que nunca acabam? podem adormecer por anos, mas voltam, invariavelmente voltam.

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puta da vida 2

Posted in Randômicas with tags on Agosto 23, 2010 by gertrudenotstein

hje é um bom dia pra eu exercitar aquela verdadeira indiferença mencionada no post “puta da vida”, porque acabei de ser desprezada mais uma vez, por outra pessoa agora.

eu: você gosta de pão de queijo?

pessoa: pessoa is offline

acho q eu merecia

a vida em sépia

Posted in Randômicas on Agosto 23, 2010 by gertrudenotstein

sabe aquele sentimento clássico de saudade do que nunca viveu? pois é, ele é uma constante em minha vida. acho que tenho uma espécie de dispositivo no cérebro muito avançado, pronto a romantizar qualquer fase do mundo sobre a qual eu venha a ler.

mas nenhuma outra época se compara com a dos anos 50, 60 e 70. vejos as imagens em sépia, como nas fotos. isso me sugere uma brandura, uma quentura, uma espécie de tranqüilidade. mesmo que na realidade não fosse nada disso, pelo menos nos anos 60 e 70 (ditadura, oi). mas deixem-me sonhar.

penso calçadas iluminadas por um sol laranja, não aquele amarelo escaldante, mas aquele sol de fim de tarde, em frestas bem definidas, com uma brisa suave. aquela alegria de dia bem vivido, comendo frutas, uma carne bem feita, sucos, cerveja. aqueles assuntos aprazíveis, uma música sem todos os requintes da indústria pop, jornais amadores e, por isso mesmo, muito mais interessantes. penso o mar limpo, os rios limpos, o céu limpo, dava-se pra ver o sol ali ao longe, sem prédios no caminho. à noite, podia-se ver a lua, e até mesmo as estrelas, já que não as ruas não eram tão iluminadas. o cinema era um evento, coisa fina, e não cheio de pipoca esmagada no chão (cuidadosamente varrida para debaixo dos bancos nos intervalos). tudo parece tão simples, e tão fácil, e tão despreocupado. tão ingênuo, em uma palavra. mas ingênua sou eu, pensando assim sobre esses outros tempos.

puta da vida

Posted in Randômicas with tags on Agosto 23, 2010 by gertrudenotstein

uma das sensações mais emputecedoras é o desprezo de outrém por você mesmo. porra! isso fere o orgulho mesmo do ser mais pacato – a não ser quando o seu próprio desprezo pela pessoa que o desprezou já é maior. mas é foda quando você é desprezado e se deixa ferir, e aí, meu filho, não tem mais… você mesmo trabalha em ferir-se cada vez mais, destilando pacientemente o veneno inoculado pelo outro, mas potencializado por você mesmo. às vezes você fica numa espécie de fossa, num vitimismo decadente, do tipo “eu sou mesmo um merda”, às vezes você tem uns rompantes de raiva, grandiosos planos de vingança lhe surgem à cabeça, e outras, você fica recapitulando tudo o que houve e pensando, com amargura, no que poderia ter dito na hora para ter saído por cima. “devia ter respondido isso ou aquilo”, ou mesmo você se perde em discursos mentais intermináveis contra a pessoa, que não te ouve.

ou quando se trata de uma pessoa muito próxima, você fica com vontade de esganá-la, provar qualquer coisa a ela, coisa que você não sabe o direito que é, mas não importa: só se quer reaver o orgulho. dá-se um gelo, um soco, ou uma resposta cortante, qualquer uma dessas reações é a prova magnânima de que você foi atingido. a verdadeira indiferença é não se alterar, em nenhum sentido: não deixar de ser como estava antes, mesmo que isso signifique continuar sendo afável e carinhoso. isso sim acabará por se configurar num desprezo ainda maior: o desprezo pelo desprezo. imagine que a outra pessoa se sentirá vitoriosa: ao contrário, verá que não tem controle algum.

por isso, meus caros, não se abalem. todos temos egos frágeis, inclusive quem feriu o seu. e ego por ego, é tudo farinha do mesmo saco e, convenhamos, não serve pra nada além de alimento pra nossa própria vaidade.

comecei esse texto com o propósito de ser o contrário de indiferente, acontece que acabei por concluir outra coisa: não vou ligar não, meus caros. meu orgulho segue ferido, mas com a persistência daqueles que não conseguem se acreditar doentes. vou andar mesmo sangrando, e recusar qualquer pano macio que sirva como curativo. que as feridas sequem ao vento, tornando-se cascas grossas, e mais difíceis de se atingir.

!

Posted in Randômicas with tags on Agosto 10, 2010 by gertrudenotstein

Ela estava de mau humor, e não sentia que tinha motivos para tanto. Mas um mal-humorado nunca quer admitir que na realidade o único problema é ele mesmo… afinal, admitir isso só o deixaria de mais mau humor ainda. Ela bufou. Ela fez cara feia para si mesma no espelho, fez cara feia pras coisas no seu quarto. Achou todos os objetos ali idiotas. Estavam só parados, presos na prórpia existência que ela mal saberia definir. Por que um copo ou uma mesa seriam?

redescobertas

Posted in Randômicas with tags on Agosto 3, 2010 by gertrudenotstein

e eis que lendo um livro, de forma inicialmente descompromissada (mas esperando obter algum tipo de ajuda), eu percebi umas coisas que sempre soubera, mas nunca admitira. e me deu vontade de postar aqui… talvez porque a declaração que preciso fazer tenha que ser mais pra fora do que simplesmente no diário. mas isso é só um embuste… mas um começo são as palavras: eu secretamente me acho melhor do que os outros, minha autocrítica tão ferrenha não é humildade e sim reflexo desse sentimento de superioridade, de que sou especial, de que tenho que sempre me superar para corresponder a essa imagem que criei de mim mesma. penso constantemente em mim, no meu desempenho, na imagem que tenho dos outros, e busco a minha satisfação comigo mesma nos outros, na aprovação dos outros.. só assim eu mesma talvez me permita me aprovar – mas não, eu nunca poderei me dar por satisfeita, porque a imagem que tenho de mim mesma é na verdade impossível de se alcançar. só isso ajuda um monte a explicar o meu congelamento diante de novos desafios: meu medo de falhar às minhas próprias expectativas e ter q lidar com isso é grande demais. crio planos, mas não sigo em frente, fico como que crente que o mundo não enxerga o meu valor, mas sonhando com essa gloriosa possibilidade. é importante admitir uma coisa: nem tudo é possível, nem tudo depende do meu talento, e nem deveria depender. eu tenho falhas, não sou melhor ou pior se consigo realizar essa ou aquela tarefa.

é verdade: quando realizo algo de que tomam nota, me elogiam, dão crédito, logo fico nervosa, ansiosa. com aquele pensamento “será que consigo repetir isso da próxima vez?”. como se fosse “sorte” por ter conseguido, porque eu mesma não estou comigo enquanto faço as coisas, sei lá o que acontece. é como se eu me desvinculasse à minha produção, quando aquilo fica pronto, não é meu. é estranho. preciso me libertar dessa constante pressão, é isso que tem me deixado indisposta em relação a tudo. tendo a achar que a pressão é da faculdade, é do mercado de trabalho, é da sociedade. mas ela é muito mais minha.