puta da vida

uma das sensações mais emputecedoras é o desprezo de outrém por você mesmo. porra! isso fere o orgulho mesmo do ser mais pacato – a não ser quando o seu próprio desprezo pela pessoa que o desprezou já é maior. mas é foda quando você é desprezado e se deixa ferir, e aí, meu filho, não tem mais… você mesmo trabalha em ferir-se cada vez mais, destilando pacientemente o veneno inoculado pelo outro, mas potencializado por você mesmo. às vezes você fica numa espécie de fossa, num vitimismo decadente, do tipo “eu sou mesmo um merda”, às vezes você tem uns rompantes de raiva, grandiosos planos de vingança lhe surgem à cabeça, e outras, você fica recapitulando tudo o que houve e pensando, com amargura, no que poderia ter dito na hora para ter saído por cima. “devia ter respondido isso ou aquilo”, ou mesmo você se perde em discursos mentais intermináveis contra a pessoa, que não te ouve.

ou quando se trata de uma pessoa muito próxima, você fica com vontade de esganá-la, provar qualquer coisa a ela, coisa que você não sabe o direito que é, mas não importa: só se quer reaver o orgulho. dá-se um gelo, um soco, ou uma resposta cortante, qualquer uma dessas reações é a prova magnânima de que você foi atingido. a verdadeira indiferença é não se alterar, em nenhum sentido: não deixar de ser como estava antes, mesmo que isso signifique continuar sendo afável e carinhoso. isso sim acabará por se configurar num desprezo ainda maior: o desprezo pelo desprezo. imagine que a outra pessoa se sentirá vitoriosa: ao contrário, verá que não tem controle algum.

por isso, meus caros, não se abalem. todos temos egos frágeis, inclusive quem feriu o seu. e ego por ego, é tudo farinha do mesmo saco e, convenhamos, não serve pra nada além de alimento pra nossa própria vaidade.

comecei esse texto com o propósito de ser o contrário de indiferente, acontece que acabei por concluir outra coisa: não vou ligar não, meus caros. meu orgulho segue ferido, mas com a persistência daqueles que não conseguem se acreditar doentes. vou andar mesmo sangrando, e recusar qualquer pano macio que sirva como curativo. que as feridas sequem ao vento, tornando-se cascas grossas, e mais difíceis de se atingir.

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2 Respostas to “puta da vida”

  1. ‘que as feridas sequem ao vento, tornando-se cascas grossas, e mais difíceis de se atingir’.

    Cuidado! O veneno do discurso da exaltação da dor estóica não é bom.
    Eu estou passando por isso numa versão macho…
    Bom post.

    • Que estranho alguém comentando aqui huahua fiz esse blog só pra jogar uns textos e não divulgar pra ninguém… Mas obrigada pelo comentário! E concordo com você, realmente não é bom esse tipo te atitude, nem é a mais madura (aliás, é a menos possível). Mas é o tipo de pensamento que te consola numa hora mais agitada como essa… pra falar a verdade, até já esqueci por que tava tão revoltada aquele dia hhuauha.

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