Livros que me marcaram – As Catilinárias, de Amélie Nothomb (e Bartleby, o escrivão de Melville)

Esse livro me marcou não porque tenha despertado em mim grandes questionamentos filosóficos sobre a vida ou coisa assim, mas porque despertou em mim emoções muito intensas enquanto eu lia. Pra ser mais precisa, me despertou muita raiva. A história é de um casal que se vê todos os dias, à mesma hora, perturbado por um vizinho que toca a campainha, entra e fica em silêncio durante toda a sua (interminável) visita. O casal não consegue compreender, e tenta fugir da situação, mas se vê de algum forma preso, e a frustração vai num crescendo, assim como a incompreensão, a vontade de dar um soco, qualquer coisa que desperte o vizinho. Eu fiquei com muita raiva, e muito confusa.

E agora percebo que isso me toca de uma maneira muito sensível. Quando li Bartleby, o escrivão, do Melville (outro livro que recomendo MUITO!!), também fiquei nesse mesmo estado de “puta que o pariu, que vontade chacoalhar esse Bartleby maldito, fazê-lo reagir, reagir). A história, nesse caso, é de um homem que contrata esse Bartleby, e ao pedir para ele realizar várias tarefas, ele simplesmente responde “prefiro não fazê-lo”. A situação vai se desenvolvendo até ficar insuportável. A gente não sabe conviver com essas coisas. Com pessoas (e situações) que fogem do pressuposto básico, daquele pré-acordo que qualquer comunicação costuma ter, dos papéis já pré-estabelecidos em sociedade. E parece que meras palavras e atitudes simples vão virando uma barreira intransponível, e a gente se frustra, e muito. Porque é incompreensível. Enfim, esses dois livros são fodásticos, e bem curtinhos e fáceis de ler. De ler numa sentada só. E depois ficar com aquele ar de sonho pelo resto do dia.

"I would prefer not to" - AAAHHHHHHHH

Je suis folle

Voltando às Catilinárias, a autora é uma francesa, que sempre escreve livros desse gênero, algo perturbador ou sei lá. Na verdade não tenho muita propriedade porque só li esse livro dela, por enquanto. E comprei no susto, por 3 reais, numa promoção do Extra. Nunca mais vi o livro à venda! Mas tem em sebos. Vejam a foto dela e sintam o estilo de livros (não que eu ache correto julgar o livro pela cara do autor :D). Mas sempre vejo os livros originais em francês à venda.

Enfim, uma leitura rápida e marcante, recomendadíssima! E em tempo, o título, catilinárias, se refere a uma série de discursos de um romano chamado Marcus Tullius Cicero contra uma tal de Catilina, que devia ser bem chata:

“Até quando, enfim, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda esse teu rancor nos enganará? Até que ponto a (tua) audácia desenfreada se gabará (de nós)?”

Porque é isso: diante de uma pessoa impertubável, que não corresponde às nossas expectativas normais de comunicação e convivência, parece-nos que estamos sendo desafiados, como se estivessem rindo às nossas custas, e, confundidos, nos enraivecemos e não sabemos mais o que fazer.

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Uma resposta to “Livros que me marcaram – As Catilinárias, de Amélie Nothomb (e Bartleby, o escrivão de Melville)”

  1. Já leste O legado de Eszter, de Sándor Márai? É tão desconcertante quanto as Catilinárias!

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