Arquivo de Janeiro, 2012

A supressão de Ana

Posted in Livros on Janeiro 17, 2012 by gertrudenotstein

de 2011

Em Resumo de Ana e Ciro, as duas partes que compõem a obra de Modesto Carone, relata-se a história de mãe e filho, narrada pelo neto da primeira e sobrinho do segundo.  Ana nasceu pobre, e ao virar órfã, foi “adotada” por uma senhora, indo lá trabalhar em serviços domésticos e como babá. Mais tarde, ela trabalharia como governanta em uma casa em São Paulo, onde conheceria a ópera e se apaixonaria pelo que ela representava. Pela vida toda almejaria sair arrumada elegantemente, para freqüentar os espaços mais elitizados de São Paulo, desejo que não seria compartilhado por seu marido. Apesar de abortar os primeiros filhos, ela enfim consegue dar luz à Lazinha, mãe do narrador. Além dela, viriam Zilda e Ciro. A trajetória de Ana vai ficando cada vez mais melancólica, à medida em que seus desentendimentos com o marido crescem e ela vê afastados seus sonhos. Ela sofre violência doméstica, e sofre também com a falência de seu marido, que passa a ficar cada vez mais ausente, indo trabalhar como vendedor ambulante de remédios. Cada vez mais entregue à bebida, Ana vai se afundando irrecuperavelmente.

Já Ciro, filho desprezado pela mãe e pelas irmãs, passa a acompanhar seu pai nas viagens logo cedo. Sua história não será muito mais feliz tampouco. Sua vida é toda de dificuldades, embora por alguns raros momentos sua vida se encaminhasse como quando passou a prestar serviços de gráfica. No final, ele volta a ser um vendedor ambulante pela rua, como no começo de sua vida com seu pai. Também Ana termina, de certa forma, como começou: sozinha e pobre.

Ambas as trajetórias somam quase um século inteiro, em um período de intensa modernização e industrialização do Brasil. No entanto, ao contrário desse pano de fundo de dinamicidade e mudanças, as personagens parecem estagnadas. Quando há movimento, ele é circular: volta-se sempre ao ponto inicial. Assim, enquanto o narrador descreve em minúcias as mudanças ocorridas nas cidades (São Paulo e Sorocaba), cita os postes da Light (empresa que implantaria a energia elétrica em São Paulo e que virou o símbolo da modernização no sudeste), as personagens, ainda que se desloquem de lugares e de situações, permanecem, ao fim, na mesma condição de pobreza.

A tristeza e melancolia por que passam as personagens se contrasta com o tom extremamente seco e direto do narrador. Embora o narrador seja subjetivo, e se identifique na história como neto de Ana e sobrinho de Ciro, o relato é objetivo. Inclusive, não é por acaso que se escreve aqui “relato”: o texto chega a tal ponto que às vezes mais parece um relatório, uma seqüência de fatos que vão se acumulando e formando o resumo da vida de ambas as personagens, mas com muito pouco espaço para qualquer floreio a mais de palavras. Nos momentos mais emotivos, em que nos preparamos para sentir o sofrimento de Ana ou de Ciro, a palavra nos corta, ríspida, e nos leva ao próximo fato narrado. A narrativa não faz curvas, meneios ou voltas, mas segue retilínea e impassível.

Talvez seja só através desse corte objetivo que personagens como as do livro possam por passar pela dura vida que os abismos entre classes sociais no Brasil lhes impuseram. Afinal, diante da sucessão de infortúnios e dificuldades, conter a subjetividade torna-se um meio de vida. E é assim que Ana suporta o seu trabalho quase que escravo na casa da senhora em Sorocaba e depois suas desilusões em seu casamento, e é assim que Ciro anda todos os dias pela cidade tentando vender a bebida que, ironicamente, tinha sido a que levara sua mãe à desgraça. Por meio da supressão do que é mais subjetivo, assim como ocorre no texto de Modesto Carone, Anas e Ciros do Brasil inteiro vivem nessa condição de invisibilidade social e de estagnação. Não é que eles não sintam, apenas não podem dar vazão a tudo que sentem.

Assim, Modesto Carone faz um retrato sensível, ainda que com o estilo seco, da vida de Ana e Ciro. E é um retrato ainda marcado por um realismo que às vezes nos faz pensar que se trata de uma reportagem, ou um relato biográfico. De fato, há certos elementos da história que são reais, como o próprio autor já afirmou em entrevista. Além disso, a foto que dá a capa ao livro (um equilibrista em Sorocaba) foi feita pelo pai do autor e, de fato, a família dele é de Sorocaba. Um livro que à primeira vista pode parecer muito duro na forma, contém, na verdade, uma suavidade comovente ao nos fazer acompanhar sem pausas e sem alívios histórias de vida tão duras e tristes.

 

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A Transvaloração dos Valores Cristãos

Posted in Livros on Janeiro 16, 2012 by gertrudenotstein

nota: escrito em 2009

O Anticristo, escrito por Friedrich Nietzsche em 1888, é um ensaio em que o autor procura fundamentar o que ele chama de “condenação eterna” ao cristianismo e sua moral. Com uma linguagem que não hesita em usar adjetivos pouco delicados nem dispensa uma fina ironia, Nietzsche aborda em 62 curtos capítulos diversos aspectos do cristianismo, procurando reduzi-los à mais desprezível forma de pensamento.

            Logo de início, o autor introduz o conceito de décadence, que seria uma forma de corrupção do ser, quando ele passa a preferir o que lhe é prejudicial e a negar, portanto, a própria vida. Nesse sentido, o cristianismo é um niilismo. Pelo resto do livro, diversas argumentações são construídas para provar essa negação da religião cristã à vida. Conforme ele mesmo diz: “A história de Israel é inestimável como história típica de toda desnaturação de todos os valores naturais (…)”. Passa-se, segundo Nietzsche, a preferir o sofrimento, a doença, a pobreza e a subordinação a saúde, riqueza e força. O cristianismo viria de um ressentimento e de um ódio, uma forma das pessoas fracas e doentes de encontrarem nesses “defeitos” um meio de se divinizar, de ter garantida, em uma vida posterior, a bem-aventurança, contra as pessoas já “bem-aventuradas” na vida terrena, que seriam condenadas ao inferno.

            Valoriza-se, portanto, tudo que é contrário à vida. Outra idéia defendida é a de que o cristianismo é contra a realidade. Todos seu conceitos são calcados na “além-vida”, em uma vida que nem se pode provar que existe ou não. Nas palavras do autor:

“Ele [Jesus] fala apenas do que é mais interior: “vida” ou “verdade” ou “luz” são as suas palavras para o que é mais interior – todo o resto, toda a realidade, toda a natureza, a própria linguagem, tem para ele apenas o valor de um símbolo, de uma parábola”. Em outro trecho, ele conclui: “Se entendo alguma coisa desse grande simbolista [Jesus], então é o fato de que ele apenas tomou realidades interiores por realidades, por “verdades” – de que ele entendeu o resto, tudo o que é natural, temporal, especial e história apenas como símbolo (…)”.

            Também é apontada a tendência a não lutar contra o sofrimento, a não opor resistência a quem quiser o mal, a, basicamente, se subordinar a tudo que acontece, pois esse seria o sinal da fé. Em um trecho mais ao fim do livro, Nietzsche diz: “Tudo o que sofre, tudo o que pende da cruz é divino (…) Estamos todos pendurados na cruz, logo nós somos divinos”. Para o autor, esse é um grande atentado a qualquer espírito e inteligência. Outra forma de conter qualquer valor natural é o conceito do pecado, que faz com que todos reprimam a si mesmos quando fazem algo que na verdade é natural e mesmo necessário. A fé é não duvidar, é não pensar, é portanto estar preso a convicções mentirosas. Dessa forma, a religião cristã é também um atentado contra a ciência, contra a busca da verdade, contra a própria filosofia. São essas, além de muitas outras idéias, que Nietzsche usa para tecer sua crítica ao cristianismo.

            No entanto, é importante ressaltar que a principal crítica de Nietzsche é aos valores, é à pretensão de dizer a outros como devem agir e sob quais pressupostos devem nortear sua vida. Assim, Nietzsche não é anti Cristo, e sim contra o que o cristianismo, principalmente o firmado por Paulo, traz às pessoas. Como contraponto, Nietzsche defende escritos orientais, como o “Código de Manu”, um livro indiano, e também faz elogios ao budismo. Enquanto o pensamento oriental seria mais puro e limpo, o cristianismo seria imundo. Até mesmo o autor diz que se deve usar luvas para ler o Novo Testamento, de tão sujo que este seria.

            Com sua ironia que muitas vezes provoca um certo riso ou mesmo uma espécie de consternação, o autor consegue, de uma forma ou de outra, deixar a sua marca no leitor. Talvez não seja possível passar incólume pela leitura de O Anticristo. Até mesmo em um cristão mais fervoroso pode fazer surgir a dúvida ou algum tipo de incômodo. Apesar de suas frases por vezes um tanto exageradas (como ao definir o cristianismo como a maior desgraça da humanidade), a argumentação é sóbria e procura cobrir todos os pontos que poderiam ser usados para “defender” os valores cristãos. Mesmo quando Nietzsche parece conceder alguma razão para o argumento contrário, é para depois destruí-lo fatalmente com seu raciocínio. Surpreende o seu tom ferino principalmente quando pensamos em sua época. E o autor tinha consciência disso: no prefácio ao livro diz que sua obra era destinada a leitores que ainda não existiam, que não pertenciam ao seu tempo. De fato, se a obra ainda hoje pode chocar as pessoas, tentar compreender a reação das pessoas na época em que ela foi escrita é difícil.