A Transvaloração dos Valores Cristãos

nota: escrito em 2009

O Anticristo, escrito por Friedrich Nietzsche em 1888, é um ensaio em que o autor procura fundamentar o que ele chama de “condenação eterna” ao cristianismo e sua moral. Com uma linguagem que não hesita em usar adjetivos pouco delicados nem dispensa uma fina ironia, Nietzsche aborda em 62 curtos capítulos diversos aspectos do cristianismo, procurando reduzi-los à mais desprezível forma de pensamento.

            Logo de início, o autor introduz o conceito de décadence, que seria uma forma de corrupção do ser, quando ele passa a preferir o que lhe é prejudicial e a negar, portanto, a própria vida. Nesse sentido, o cristianismo é um niilismo. Pelo resto do livro, diversas argumentações são construídas para provar essa negação da religião cristã à vida. Conforme ele mesmo diz: “A história de Israel é inestimável como história típica de toda desnaturação de todos os valores naturais (…)”. Passa-se, segundo Nietzsche, a preferir o sofrimento, a doença, a pobreza e a subordinação a saúde, riqueza e força. O cristianismo viria de um ressentimento e de um ódio, uma forma das pessoas fracas e doentes de encontrarem nesses “defeitos” um meio de se divinizar, de ter garantida, em uma vida posterior, a bem-aventurança, contra as pessoas já “bem-aventuradas” na vida terrena, que seriam condenadas ao inferno.

            Valoriza-se, portanto, tudo que é contrário à vida. Outra idéia defendida é a de que o cristianismo é contra a realidade. Todos seu conceitos são calcados na “além-vida”, em uma vida que nem se pode provar que existe ou não. Nas palavras do autor:

“Ele [Jesus] fala apenas do que é mais interior: “vida” ou “verdade” ou “luz” são as suas palavras para o que é mais interior – todo o resto, toda a realidade, toda a natureza, a própria linguagem, tem para ele apenas o valor de um símbolo, de uma parábola”. Em outro trecho, ele conclui: “Se entendo alguma coisa desse grande simbolista [Jesus], então é o fato de que ele apenas tomou realidades interiores por realidades, por “verdades” – de que ele entendeu o resto, tudo o que é natural, temporal, especial e história apenas como símbolo (…)”.

            Também é apontada a tendência a não lutar contra o sofrimento, a não opor resistência a quem quiser o mal, a, basicamente, se subordinar a tudo que acontece, pois esse seria o sinal da fé. Em um trecho mais ao fim do livro, Nietzsche diz: “Tudo o que sofre, tudo o que pende da cruz é divino (…) Estamos todos pendurados na cruz, logo nós somos divinos”. Para o autor, esse é um grande atentado a qualquer espírito e inteligência. Outra forma de conter qualquer valor natural é o conceito do pecado, que faz com que todos reprimam a si mesmos quando fazem algo que na verdade é natural e mesmo necessário. A fé é não duvidar, é não pensar, é portanto estar preso a convicções mentirosas. Dessa forma, a religião cristã é também um atentado contra a ciência, contra a busca da verdade, contra a própria filosofia. São essas, além de muitas outras idéias, que Nietzsche usa para tecer sua crítica ao cristianismo.

            No entanto, é importante ressaltar que a principal crítica de Nietzsche é aos valores, é à pretensão de dizer a outros como devem agir e sob quais pressupostos devem nortear sua vida. Assim, Nietzsche não é anti Cristo, e sim contra o que o cristianismo, principalmente o firmado por Paulo, traz às pessoas. Como contraponto, Nietzsche defende escritos orientais, como o “Código de Manu”, um livro indiano, e também faz elogios ao budismo. Enquanto o pensamento oriental seria mais puro e limpo, o cristianismo seria imundo. Até mesmo o autor diz que se deve usar luvas para ler o Novo Testamento, de tão sujo que este seria.

            Com sua ironia que muitas vezes provoca um certo riso ou mesmo uma espécie de consternação, o autor consegue, de uma forma ou de outra, deixar a sua marca no leitor. Talvez não seja possível passar incólume pela leitura de O Anticristo. Até mesmo em um cristão mais fervoroso pode fazer surgir a dúvida ou algum tipo de incômodo. Apesar de suas frases por vezes um tanto exageradas (como ao definir o cristianismo como a maior desgraça da humanidade), a argumentação é sóbria e procura cobrir todos os pontos que poderiam ser usados para “defender” os valores cristãos. Mesmo quando Nietzsche parece conceder alguma razão para o argumento contrário, é para depois destruí-lo fatalmente com seu raciocínio. Surpreende o seu tom ferino principalmente quando pensamos em sua época. E o autor tinha consciência disso: no prefácio ao livro diz que sua obra era destinada a leitores que ainda não existiam, que não pertenciam ao seu tempo. De fato, se a obra ainda hoje pode chocar as pessoas, tentar compreender a reação das pessoas na época em que ela foi escrita é difícil.

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