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Random Texts: O ar que eu mesma expirava me dava cócegas terríveis.doc

Posted in .doc with tags , on Outubro 10, 2011 by gertrudenotstein

Texto escrito em junho de 2011, na pasta Meus Documentos:

O ar que eu mesma expirava me dava cócegas terríveis. De algum modo, sempre tinha que mudar de posição o meu braço, ou a minha mão, para que não sentisse o meu próprio ar resvalar neles. O engraçado é que aquela cócega só surgira, aparentemente, há pouco tempo. Nunca havia tido problemas com o meu ar.

Também nunca o sentira faltar tantas vezes, e tão freqüentemente. Me incomodava como às vezes o ar se recusava a chegar fundo, parecia que meu interior era por demais desagradável, então todo o ar logo se esforçava por subir novamente à tona. Me escapando. Me sufocando.

Buscava-o novamente, mais sôfrega e profundamente. Mas mais rápida e eficiente ele me fugia.

Mas quando consigo prendê-lo, ele me faz cócegas.  E eu também não gostava de sentir meu coração bater, como se eu pudesse, então, perceber ele parando de repente. Perceber a traição. Não, seria melhor não saber, quanto menos eu sentisse e soubesse meu coração, melhor.

Hoje pensei em dar uma volta, mas então percebi que melhor seria permanecer sentada. Porque sentada, não haveria surpresas. Seria o mais correto. Soube que uma parente minha morreu, e pensei sobre como as coisas se vão rapidamente, que nem o ar dentro de mim. Pensei que gostaria de tê-la conhecido melhor, pensei na minha avó, que perdia mais uma pessoa. Pensei em como detesto perdas, ainda mais as irreversíveis como as provocadas pela morte, e então me lembrei do poema da Emily Dickinson. Conheci-o pela primeira vez através de um professor de literatura de quem gostava muito, mas que depois se provou um cretino. Ao meu ver, ao menos. Ele usava sapatos compridos, e andava com as pernas abertas, e então dava a impressão de ser um ganso, sem tirar nem pôr, exatamente um ganso. E não um pato ou uma galinha.

Não penso que conseguirei dormir esta noite, já que algumas coisas me deixaram ansiosa. Nada que eu possa resolver, ou nem mesmo exprimir. É que a vida me falta, então eu percebo isso e fico sem saber. Gostaria de ter mais meios, como asas, ou mesmo rodas. Não sei. Talvez gostaria de não ter medo.

Melhor seria, na verdade, se eu tivesse aquela doce e cálida indiferença, que nos mantêm a salvo e numa constante quietude. Imagine eu, quieta: !. Gostaria de saber como é. Embora na verdade eu saiba, é que é difícil eu me deixar ir. Às vezes, é verdade, me esvaio muito fácil, mas sempre estou alerta, no fundo, da mentira que é aquilo tudo.  Acho que seria bom mesmo ter não só a dimensão da real brevidade de tudo, e da real insignificância de tudo, mas daí sempre penso: mas então de quê vale viver? Melhor eu me preocupar com tudo, porque a vida é isso mesmo, e se eu não tiver isso, o que vou ter? Então me falta a dimensão prática disso tudo. Porque… o que coloco no lugar? Uma serenidade?

A serenidade sempre me parece solitária, não sei, companhias mexem com a minha calma. Pessoas me agitam, me irritam, me aborrecem. Posso ser indiferente à maioria, mas ainda assim… me despertam, me afloram. Para ser serena, talvez, e realmente serena, teria que estar só.

Viveria num deserto, talvez. Nessa hora do frio, o calor do sol parece ser algo impossível. Mas é impossível mesmo me esquecer dos calores infernais pelos quais já passei, do suor, do mal estar, da moleza. De entrar na água do mar e perceber que também ela está quente. Não há decepção pior do que essa, aliás. Nunca, até aquele dia, esperara que o mar não fosse me aliviar daquele calor. Quão aflitivo! A sensação é parecida com respirar e não sentir o ar, a propósito.

Um dia eu percebi que talvez as coisas realmente continuem sempre as mesmas. Mas foi então que eu vi o quanto eu tinha mudado, e isso me deixou triste, porque senti que mudei pra pior. Senti que eu deixei tudo que importava ir embora, e fiquei com pouco mais do que um amontoado de papéis e objetos esparsos. Como um cachorro de borracha, que comprei uma vez na banca de revistas. E um binóculo antigo que peguei na casa de uma tia minha, que já se foi. E quanta coisa deixei ir embora… Talvez se eu soubesse o que foram exatamente essas coisas, poderia tentar resgatá-las, mas só o que sei é que sinto vazio. Era mesmo um clichê, mas é por isso mesmo que eles sobrevivem.

E não foi por falta de esforço. Como perfeito produto da minha era, tentei documentar tudo, porque sempre soube o quão facilmente poderia tudo ir embora, sumir, desaparecer. Que pânico sentia eu em perceber que eu não me lembraria daquele dia depois de um tempo, não lembraria nem da roupa, nem do tempo, nem do que eu fizera ou falara. Anotava em lugares, guardava papéis, guardanapos de restaurantes, apoios de copos, fotos, cartas, bilhetes insignificantes, notas fiscais, passagens de ônibus. Tudo numa tentativa fracassada de não deixar se esvaírem das minhas mãos aquilo que por um momento me parecia importante somente por ser tão esquecível.

As coisas grandes, os espetáculos, os momentos marcantes: estes eu não fazia questão de fazer tantos recortes. Sabia que me lembraria deles. Mas e o resto? E a vida toda? Onde ficaria tudo? E com eles, sumiram também aquele meu otimismo, aquele meu riso fácil… hoje sou amarga, e nem sei por quê. Sei que não há motivo bom o suficiente. Afinal, nunca me dei a prerrogativa de ter meus sentimentos justificados. Sempre pensei: não tem por quê, preciso esquecer.

Olho pra tudo em volta, e sinto a angústia de quem sabe que está tudo errado, mas não sabe como começar. Peças de quebra-cabeça sem indicação alguma, as vejo todas do avesso.  Meu corpo parece ter ficado cada vez mais mole, e minha mente cada vez mais sem forma. Sei que os olhos percebem cada vez menos cores. Consigo ver o que é vermelho e o que é preto, o resto está meio apagado. Porque o que mais vejo e sinto são as paixões violentas. Rompantes de raiva, de frustrações e de amor. E também o luto, o esmorecimento, o pesar. As sutilezas se foram há muito tempo.

Por isso que, se estivesse no escuro, só uma cor me faltaria.

O que não deixa de ser irônico, porque sempre fui avessa ao que fosse muito pronunciado ou exagerado. Sempre detestei grandes celebrações, apoteoses de qualquer tipo. Ou o oposto, a total soturnidade, como me irritavam essas coisas: só enxergar e apreciar um único lado das coisas. Como isso poderia ser real? A realidade é toda sutilezas, é toda meios-tons misturados, não é nem uma cor nem outra, a realidade é todo um jogo das luzes que quisermos colocar. E se iluminamos forte demais um ponto, não só outros ficam obscuros, como alguns tons mais delicados do lugar iluminado ficam ofuscados, e deixamos de vê-los também. Então como fora eu mesma me tornar uma pessoa de tons inteiros?

Não o sei.

Mas realmente… parece que algo me prende. Tão bem, que nem percebo. Sinto-me congelar, e tudo o que quer sair parece implodir em lágrimas, em calor nos meus olhos. O corpo parece-me insuficiente para mim mesma, gostaria de assumir outras formas. Gostaria de me transformar em ar. Ou em água. Como me sinto bem na água! Como gosto de me deixar à deriva da água calma, de observar meu cabelo flutuando, quase que me imagino Ofélia, com vitórias-régias a minha volta, e os olhares desesperados sobre mim.

E o silêncio que a água me traz. Não ouço mais nada. Só não gosto quando me aparecem libélulas. Diria até que prefiro marimbondos.

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de 2007 – blé.doc

Posted in .doc on Junho 22, 2010 by gertrudenotstein

Naquele dia eu acordara com uma terrível sensação de perda. Abri os olhos e os primeiros sons do dia me pareceram notas melancólicas, fúnebres. Gotas de orvalho pingavam sôfrega e pesadamente nas folhas, em meio a um pio fraco de um passarinho pouco inspirado e o uivo inconsolável do vento, que parecia envolver todo o resto. Levantei-me artordoado, pensando haver uma densa névoa obscurecendo minha visão, mas não, estava tudo claro quando abri a janela. O dia mostrava-se ensolarado e nada confirmava a minha impressão tão pessimista.

Desejaram-me bom dia alegremente, eu comprei o jornal e a primeira notícia discorria sobre um evento cultural: nada triste, nada trágico. Mas ainda assim eu continuava a sentir meus passos pesarem, o vento frio e úmido confranger meu peito e um ar doentio em tudo que eu via. Nada compactuava com o meu estranho torpor, nada, até aquele momento.

Foi logo depois do almoço e da conversa difusa e non sense de quem quer que estivesse me acompanhando. Saí do restaurante para a calçada e, num repente, pensei ter divisado por entre a névoa um inseto qualquer, voando desesperado em minha direção. Desvencilhei-me rapidamente, sentindo suas asinhas resvalarem em minha orelha, como teria que fazer novamente na próxima esquina, quando outros dois novamente voaram descontrolados como que para atingir o meu rosto. Pelo resto do dia, em cada rua, na sala do escritório, quando saí para comprar cigarros e até mesmo quando procurava um número de telefone perdido, episódios assim se sucederam.

Borboletas, mosquitos de todos os tipos, abelhas, mariposas, libélulas, baratas, todos com suas asas viscosas, o aspecto luzidio, as estruturas ora pegajosas, ora ásperas, sempre com um inconfundível ar de urgência e medo. Era como se estivessem rodeados pela mesma névoa, pelos mesmos sons e imagens tristes, obscuros, incompreensíveis. Como se eu fosse a única coisa que eles pudessem ver claramente, da mesma forma que só eles se sobressaíam na paisagem confusa que eu enxergava.

Não tive nojo, desprezo, nem medo, e sim uma inesperada sensação solidária. Era um múto entendimento entre mim e aqueles insetos, que nunca haviam significado nada para mim até aquele momento. Sentia que éramos todos estrangeiros perdidos no mesmo mundo estranho e desconhecido, mas, mesmo assim, eu continuava a me afastar deles mecanicamente: nós sabíamos que eu nada poderia fazer por eles, nem eles por mim e talvez fosse isso o mais desesperador.

Naquela noite eu não consegui dormir, embora ela tenha parecido o mais estranho sonhos de todos. Sentia multidões de pequenos voadores à minha espreita, nos vãos do meu quarto, nas frestas da janela e da porta, embaixo da minha cama; todos esperando por algum movimento meu, para então me seguir, tentar ir ao meu encontro, agarrar-me de alguma forma. Permaneci imóvel o tempo todo, respirando pausadamente, procurando ignorar o som insuportável de todas aquelas asas, todos aqueles murmúrios sombrios e quase que rastejantes, pegajosos à minha volta. De alguma forma, eu tinha a esperança de que conforme o novo dia surgisse, todos eles fossem embora e eu poderia, no futuro, me perguntar se aquele dia fora apenas uma alucinação. Mas, ao entrever o primeiro sinal de que o sol subia, senti um calafrio que me fez estremecer inteiro e perceber que não, eles não iriam sair dali. Ainda estavam todos lá, como que sentinelas, embora nada silenciosas. O zumbido incessante misturava-se aos pensamentos confusos que agitavam-se na minha cabeça. Eu não me importava, realmente, com todos eles e era isso que me deixava assustado.

Sentir o chão frio foi uma estranha lembrança da realidade. Surgiam na minha mente imagens apagandas de um outro mundo, com outras cores, outros sons, outros dias. A névoa talvez tivesse se dissipado aos meus olhos, mas o que me parecia ser real estava embaçado. Só os sons e as minhas sensações eram multiplicados, o resto ficava em segundo plano, como que um universo à parte. A toda hora eu esperava tudo sumir e eu me dar conta de que nada daquilo acontecia, mas o ar modorrento continuava ali, bafejando no meu corpo. Sentindo uma necessidade desesperadora de sair de casa, experimentei dar um passo à frente. Foi automático: como se a noite toda só tivessem esperado por isso, todas aquelas criaturas começaram a voar ao meu lado de pronto, quase que se empurrando para ficarem mais próximas do meu rosto. Não via outra saída, então continuei o meu trajeto até a porta do quarto, onde, mais uma vez, eu parei. No corredor havia outros milhares, todos me esperando.

Resolvendo adiar o corredor, fui me trocar. Voavam à minha volta, agitados, grudavam-se na minha camiseta, depois no meus ombros, para sair logo depois quando eu punha a camisa para o trabalho. Tirando alguns deles dos meus sapatos, calcei-me e entrei no corredor. Os que estavam lá simplesmente se agruparam aos outros e eu pude seguir em direção à rua, com aquela agora gigantesca sombra disforme e asquerosa. Mas o resto continuava tudo normal, exatamente como nos outros, agora estranhos e irreais, dias de minha vida.

As pessoas ao me darem bom-dia apenas se afastavam um pouco para o lado, como se nada daquilo fosse anormal ou inesperado. Somente procuravam me evitar, sem revelar nenhuma surpresa, nenhum nojo. Por um breve momento me vi delirando pensando haver uma conspiração, todos os insetos mancomunados com o resto das pessoas, apenas para me perseguir daquela forma bizarra. Mas logo recobrei os pensamentos normais quando percebi que ninguém ousara chegar perto de mim no trabalho. Sempre me interfonavam no ramal da minha sala, mas nunca se aproximando. Fax, e-mails, telefonemas o dia todo, substituindo toda e qualquer conversa que eu estava acostumado a ter, transmitindo todo o tiop de coisa, menos comentários sobre o que me acontecia. Nem mesmo uma pergunta, algum pedido de explicação, nada. Quando eu chamava, pareciam não ouvir, quando eu passava, desviavam-se como eu me desviava no começo dos primeiros mosquitos. De repente, vi-me isolado em um mundo completamente meu, como se eu mesmo tivesse virado um daqueles insetos, desprezado e ignorado por todos.

Na maior parte do tempo conseguia ignorar tudo aquilo, concentrando-me cada vez mais em cada pequena coisa que me via obrigado a fazer no trabalho ou em casa. Cada minuto era só a espera para o próximo chegar, numa sucessão de dias indefinidos, inúteis, vazios. De alguma forma parecia tudo inevitável para mim e eu me conformava sem estranhar ou questionar, sem nem reclamar do fato de até mesmo minha mãe não mais ousar dirigir a palavra a mim desde aquele dia. Mas era impossível evitar aqueles momentos de repentina lucidez e desespero, quando as duas realidades se chocavam e eu me perdia nas cores, nos sons, nas rotinas, imaginando como seria o fim disso tudo. Ainda vejo toda vez a imagem nítida de eu mesmo morto, sozinho, e ninguém por perto, ninguém a não ser os milhares de insetos me velando, zumbindo para sempre.