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Posted in Uncategorized on Outubro 30, 2012 by gertrudenotstein

Às vezes você tem que ser miserável. Como se você não pudesse evitar. Você tem que só mergulhar em toda aquela mistura azeda de sentimentos e não pensar a respeito. Não lutar contra. Se você não fizer isso, vai ficar com a respiração presa por dias.

E poucas coisas incomodam mais do que aquele suspiro estrangulado, você pensa que é o peso a mais que você está carregando. Talvez…

Já houve vezes em que eu senti um peso tão grande nas minhas costelas que eu cheguei a acreditar que eu realmente nunca mais respiraria normalmente. É um desespero tão angustiante, e você de repente, nesses momentos, sente que entende todas as poesias já escritas.

Só em momentos muito particulares podemos entender a poesia. Porque na verdade poesia não se lê. Senti-la é o único modo, e por isso a coisa mais narcisista que você pode fazer é entender uma poesia. E a partir do momento em que você a entende, é como se não houvesse diferença entre o texto e você mesmo. E nessas horas de dor e desespero, nós entendemos todas as poesias porque estamos tão concentrados em nós mesmos que fica tudo emocionalmente inteligível. Talvez ler poesia em um momento de extrema felicidade ou tédio o seja assim também, mas acho que quando estou feliz não leio poesias.

Mas. Narcisismo. E os ecos são as rimas.

E poucas coisas me soam mais estranhas do que se sentar para ler um livro de poesias. Assim, como quem lê um romance. Em um mundo ideal, as poesias deveriam estar tão espalhadas quanto possível, nas árvores, postes, vidros de carro, nos asfalto, no letreiro do noticiário. Assim, leríamos as poesias em momentos precisos, espontâneos, e elas caberiam tão perfeitamente, tão calidamente. Poesias precisam ficar na voz, o calor da voz, a frieza da voz, a voz embargada, a voz rouca, a voz frenética. Poesias não são silenciosas. O mundo é uma cacofonia de poesias desesperadas para serem ouvidas.

às vezes eu paro e fico em silêncio, e eu consigo ouvir alguns versos.

Em todo caso… nessas horas em que o ar parece qu enunca mais vai correr livre no nosso peito, e o menor pensamento te causa um frêmito de dor, aquela sensação terrível na espinha, o frio, as borboletas negras no seu estômago. Ou melhor, mariposas no estômago, ásperas.

É estranho como em muitas ocasiões eu estive no sol, e num calor absurdamente sufocante, e de repente um frio inexplicável corria meu corpo. Ainda que estivesse ardendo de calor o tempo todo, ainda que o sol permanecesse ali, aquele instante de calafrio era tão estranho, como uma memória intrusa.

E quando você se sente tão sozinho, porque você percebe que a verdade é que você está sozinho. Você pensa no momento em que você começará a perder as pessoas que você mais ama, e é tudo insuportável. E aí a poesia.