Livros que me marcaram – As Catilinárias, de Amélie Nothomb (e Bartleby, o escrivão de Melville)

Posted in Livros with tags on Outubro 9, 2011 by gertrudenotstein

Esse livro me marcou não porque tenha despertado em mim grandes questionamentos filosóficos sobre a vida ou coisa assim, mas porque despertou em mim emoções muito intensas enquanto eu lia. Pra ser mais precisa, me despertou muita raiva. A história é de um casal que se vê todos os dias, à mesma hora, perturbado por um vizinho que toca a campainha, entra e fica em silêncio durante toda a sua (interminável) visita. O casal não consegue compreender, e tenta fugir da situação, mas se vê de algum forma preso, e a frustração vai num crescendo, assim como a incompreensão, a vontade de dar um soco, qualquer coisa que desperte o vizinho. Eu fiquei com muita raiva, e muito confusa.

E agora percebo que isso me toca de uma maneira muito sensível. Quando li Bartleby, o escrivão, do Melville (outro livro que recomendo MUITO!!), também fiquei nesse mesmo estado de “puta que o pariu, que vontade chacoalhar esse Bartleby maldito, fazê-lo reagir, reagir). A história, nesse caso, é de um homem que contrata esse Bartleby, e ao pedir para ele realizar várias tarefas, ele simplesmente responde “prefiro não fazê-lo”. A situação vai se desenvolvendo até ficar insuportável. A gente não sabe conviver com essas coisas. Com pessoas (e situações) que fogem do pressuposto básico, daquele pré-acordo que qualquer comunicação costuma ter, dos papéis já pré-estabelecidos em sociedade. E parece que meras palavras e atitudes simples vão virando uma barreira intransponível, e a gente se frustra, e muito. Porque é incompreensível. Enfim, esses dois livros são fodásticos, e bem curtinhos e fáceis de ler. De ler numa sentada só. E depois ficar com aquele ar de sonho pelo resto do dia.

"I would prefer not to" - AAAHHHHHHHH

Je suis folle

Voltando às Catilinárias, a autora é uma francesa, que sempre escreve livros desse gênero, algo perturbador ou sei lá. Na verdade não tenho muita propriedade porque só li esse livro dela, por enquanto. E comprei no susto, por 3 reais, numa promoção do Extra. Nunca mais vi o livro à venda! Mas tem em sebos. Vejam a foto dela e sintam o estilo de livros (não que eu ache correto julgar o livro pela cara do autor :D). Mas sempre vejo os livros originais em francês à venda.

Enfim, uma leitura rápida e marcante, recomendadíssima! E em tempo, o título, catilinárias, se refere a uma série de discursos de um romano chamado Marcus Tullius Cicero contra uma tal de Catilina, que devia ser bem chata:

“Até quando, enfim, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda esse teu rancor nos enganará? Até que ponto a (tua) audácia desenfreada se gabará (de nós)?”

Porque é isso: diante de uma pessoa impertubável, que não corresponde às nossas expectativas normais de comunicação e convivência, parece-nos que estamos sendo desafiados, como se estivessem rindo às nossas custas, e, confundidos, nos enraivecemos e não sabemos mais o que fazer.

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Cameron Crowe e seus artigos na Rolling Stone

Posted in .cult with tags , on Outubro 9, 2011 by gertrudenotstein

Decidi tentar reavivar esse blog abandonado às moscas eletrônicas, começando por um serviço público. Reuni todos os artigos do Cameron Crowe para a Rolling Stone, desde o primeiro até o mais recente. A ordem na verdade é inversa, vai do mais recente ao mais antigo, e tem de tudo: entrevistas com grandes nomes como Neil Young, com o Led Zeppelin, com o Allman Brothers, até com alguns nomes que hoje parecem estranhos a nós, e enfim, tudo muito interessante. Alguns artigos têm comentários do autor. E tá tudo em inglês, são mais de 300 páginas de artigos, algum pode interessar =D  E o grandioso pdf está aqui: http://www.4shared.com/document/Yaip59js/Cameron_Crowe.html.

Em tempo, caso não tenham assistido aos filmes dele, assistam. Em particular eu gosto de Quase Famosos: fez parte da minha adolescência, por muito tempo meu nickname na internet foi Penny Lane, e como eu gostava daquele clima todo dos anos 70, de banda na estrada, da paixão insuportável de tão intensa pela música… e a trilha sonora é ótima.

Inclusive deixo vocês aqui com duas músicas da trilha. A primeira é de uma banda chamada Thunderclap Newman, e a segunda foi feita especialmente para o filme, e é da banda fictícia Stillwater (que na verdade seria o Led Zeppelin na história original, porque o filme é baseado nas experiências do Cameron Crowe como jornalista para a Rolling Stone – e existiu uma banda chamada Stillwater, mas não é a do filme!):

Depois volto com os últimos cds e livros apreciados por myself!

choro azedo

Posted in Randômicas with tags on Agosto 24, 2010 by gertrudenotstein

choro azedo é aquele choro estragado: já se chorou tantas vezes pela mesma coisa, que ele já tá velho, já foi chorado muitas vezes. azedou. eu conheço bem esse choro, e arrisco dizer que só não é pior do que aquele choro desesperado, que, de tão inflamado, esgota a si mesmo numa única vez.

o choro azedo chega a uma hora que nem sabe explicar-se. basta uma leve injúria que abra a ferida mal cicatrizada, que ele vem, igual, repetido, como que batendo cartão. e você, tenta em vão controlá-lo: “não vou chorar dessa vez”. mas chora, invariavelmente chora.

e pode se passar tanto tempo que uma hora você não sabe mais o que fazer, o choro ganhou vida própria. já tá velho, estragado, sem sal, mas continua vindo. como esquecer essa mágoa? como não se abater com a mísera lembrança? como nos livrar dessas dores que nunca acabam? podem adormecer por anos, mas voltam, invariavelmente voltam.

puta da vida 2

Posted in Randômicas with tags on Agosto 23, 2010 by gertrudenotstein

hje é um bom dia pra eu exercitar aquela verdadeira indiferença mencionada no post “puta da vida”, porque acabei de ser desprezada mais uma vez, por outra pessoa agora.

eu: você gosta de pão de queijo?

pessoa: pessoa is offline

acho q eu merecia

a vida em sépia

Posted in Randômicas on Agosto 23, 2010 by gertrudenotstein

sabe aquele sentimento clássico de saudade do que nunca viveu? pois é, ele é uma constante em minha vida. acho que tenho uma espécie de dispositivo no cérebro muito avançado, pronto a romantizar qualquer fase do mundo sobre a qual eu venha a ler.

mas nenhuma outra época se compara com a dos anos 50, 60 e 70. vejos as imagens em sépia, como nas fotos. isso me sugere uma brandura, uma quentura, uma espécie de tranqüilidade. mesmo que na realidade não fosse nada disso, pelo menos nos anos 60 e 70 (ditadura, oi). mas deixem-me sonhar.

penso calçadas iluminadas por um sol laranja, não aquele amarelo escaldante, mas aquele sol de fim de tarde, em frestas bem definidas, com uma brisa suave. aquela alegria de dia bem vivido, comendo frutas, uma carne bem feita, sucos, cerveja. aqueles assuntos aprazíveis, uma música sem todos os requintes da indústria pop, jornais amadores e, por isso mesmo, muito mais interessantes. penso o mar limpo, os rios limpos, o céu limpo, dava-se pra ver o sol ali ao longe, sem prédios no caminho. à noite, podia-se ver a lua, e até mesmo as estrelas, já que não as ruas não eram tão iluminadas. o cinema era um evento, coisa fina, e não cheio de pipoca esmagada no chão (cuidadosamente varrida para debaixo dos bancos nos intervalos). tudo parece tão simples, e tão fácil, e tão despreocupado. tão ingênuo, em uma palavra. mas ingênua sou eu, pensando assim sobre esses outros tempos.

puta da vida

Posted in Randômicas with tags on Agosto 23, 2010 by gertrudenotstein

uma das sensações mais emputecedoras é o desprezo de outrém por você mesmo. porra! isso fere o orgulho mesmo do ser mais pacato – a não ser quando o seu próprio desprezo pela pessoa que o desprezou já é maior. mas é foda quando você é desprezado e se deixa ferir, e aí, meu filho, não tem mais… você mesmo trabalha em ferir-se cada vez mais, destilando pacientemente o veneno inoculado pelo outro, mas potencializado por você mesmo. às vezes você fica numa espécie de fossa, num vitimismo decadente, do tipo “eu sou mesmo um merda”, às vezes você tem uns rompantes de raiva, grandiosos planos de vingança lhe surgem à cabeça, e outras, você fica recapitulando tudo o que houve e pensando, com amargura, no que poderia ter dito na hora para ter saído por cima. “devia ter respondido isso ou aquilo”, ou mesmo você se perde em discursos mentais intermináveis contra a pessoa, que não te ouve.

ou quando se trata de uma pessoa muito próxima, você fica com vontade de esganá-la, provar qualquer coisa a ela, coisa que você não sabe o direito que é, mas não importa: só se quer reaver o orgulho. dá-se um gelo, um soco, ou uma resposta cortante, qualquer uma dessas reações é a prova magnânima de que você foi atingido. a verdadeira indiferença é não se alterar, em nenhum sentido: não deixar de ser como estava antes, mesmo que isso signifique continuar sendo afável e carinhoso. isso sim acabará por se configurar num desprezo ainda maior: o desprezo pelo desprezo. imagine que a outra pessoa se sentirá vitoriosa: ao contrário, verá que não tem controle algum.

por isso, meus caros, não se abalem. todos temos egos frágeis, inclusive quem feriu o seu. e ego por ego, é tudo farinha do mesmo saco e, convenhamos, não serve pra nada além de alimento pra nossa própria vaidade.

comecei esse texto com o propósito de ser o contrário de indiferente, acontece que acabei por concluir outra coisa: não vou ligar não, meus caros. meu orgulho segue ferido, mas com a persistência daqueles que não conseguem se acreditar doentes. vou andar mesmo sangrando, e recusar qualquer pano macio que sirva como curativo. que as feridas sequem ao vento, tornando-se cascas grossas, e mais difíceis de se atingir.

!

Posted in Randômicas with tags on Agosto 10, 2010 by gertrudenotstein

Ela estava de mau humor, e não sentia que tinha motivos para tanto. Mas um mal-humorado nunca quer admitir que na realidade o único problema é ele mesmo… afinal, admitir isso só o deixaria de mais mau humor ainda. Ela bufou. Ela fez cara feia para si mesma no espelho, fez cara feia pras coisas no seu quarto. Achou todos os objetos ali idiotas. Estavam só parados, presos na prórpia existência que ela mal saberia definir. Por que um copo ou uma mesa seriam?